Saturday, October 03, 2015

Heidegger - Documentário da BBC




Vale a pena complementar o excelente documentário com o testemunho de dois ex-alunos de Heidegger, depois grandes filósofos também:

"Havia algo de estranho nessa primeira glória [do período inicial de Heidegger como professor em Friburgo, a que chegou em 1919, e antes dos livros e conferências que o consagraram em definitivo], talvez ainda mais do que na de Kafka no início dos anos 1920 e na de Braque e de Picasso ao longo da década anterior. Estes eram igualmente desconhecidos do público, no sentido corrente do termo, e no entanto exerciam uma influência extraordinária. Mas, no caso de Heidegger, não existia nada em que sua fama pudesse se apoiar, nenhum texto e apenas notas de cursos, que circulavam de mão em mão; e os cursos tratavam de textos universalmente conhecidos, sem conter nenhuma doutrina a ser tomada e transmitida. Não havia senão um nome, mas o nome viajava por toda a Alemanha como a novidade do rei secreto. (...) O decisivo no método era que, por exemplo, não se falava sobre Platão e não se expunha sua doutrina das ideias, mas SEGUIA-SE E SE SUSTENTAVA UM DIÁLOGO DURANTE UM SEMESTRE INTEIRO, até não ser mais uma doutrina milenar, mas apenas uma problemática altamente contemporânea. Hoje em dia, isso sem dúvida nos parece totalmente familiar: agora muitos procedem assim; antes de Heidegger ninguém o fazia. A novidade simplesmente dizia: O PENSAMENTO TORNOU A SER VIVO, ELE FAZ COM QUE FALEM TESOUROS CULTURAIS DO PASSADO CONSIDERADOS MORTOS  E EIS QUE ELES PROPÕEM COISAS TOTALMENTE DIFERENTES do que desconfiadamente se julgava. Há um mestre; talvez se possa APRENDER A PENSAR".
-Hannah Arendt-

"O leitor contemporâneo do primeiro trabalho sistemático de Heidegger [SER E TEMPO, 1927]
 foi capturado pela VEEMÊNCIA DO SEU PROTESTO APAIXONADO contra o mundo cultural seguro da geração mais velha e pelo nivelamento de todas as formas individuais de vida pela sociedade industrial, com as suas uniformidades e as suas técnicas de comunicação e relações públicas que manipulam tudo. Heidegger contrastou o conceito de autenticidade do Dasein [o existente, o homem em seu ser específico, diferente, em seu Selbst (si mesmo), do ego pensante tal como no individualismo cartesiano] , que está ciente de sua finitude e que aceita resolutamente, com o 'Eles' [das Man, o "se" impessoal, como nas fórmulas "se diz", "se pensa", "se acha", a voz gregária, maciça e burra do "todo mundo sabe que"], como formas inautênticas e perdidas do Dasein. A SERIEDADE EXISTENCIAL com que ele trouxe o velho mistério da morte para o centro do interesse filosófico e a FORÇA COM QUE O SEU DESAFIO À VERDADEIRA 'ESCOLHA' DE EXISTÊNCIA esmagou o mundo ilusório de educação e cultura, desfez a bem preservada tranquilidade acadêmica".
-Hans-Georg Gadamer-