Thursday, October 01, 2015

o nazismo esotérico (1) - Hitler Hexenmeister




Hitler em Nuremberg, diante de centenas de soldados da SS

"O que aconteceria se encerrássemos Hitler, Mussolini e Stálin num quarto, os três juntos, e lhes déssemos um pão e uma caneca de água para lutar uma semana? Quem ficaria com o pão e a água? Ou dividiriam entre eles?"
A curiosa questão posta para Jung é de uma entrevista de 1938, feita por um dos maiores correspondentes internacionais do jornalismo norte-americano, H. R. Knickerbocker. Ganhador do Pulitzer em 1931, ele tinha o dom de estar no olho do furacão, ou dos furacões, daqueles tensos anos do entre-guerras. Estudava medicina em Munique quando do putsch de Hitler naquela cidade, em 1923. Cobriu a União Soviética, a guerra ítalo-etíope, a guerra civil espanhola, o Anschluss na Áustria. Vem a Jung, na Suíça, diretamente de Praga, onde testemunhara mais um passo da então irresistível escalada do poder de Hitler na cena europeia. O ditador alemão então estava recoberto de uma aura de invencibilidade quase mágica, não ainda "demoníaca" no sentido com que entrará para a História após a deflagração da Segunda Guerra e a barbárie do Holocausto. É esse poder de Hexenmeister (feiticeiro) que Jung vai enfatizar ao longo da entrevista. Desde a primeira resposta:
"Duvido muito de que dividissem isso [o pão e água] entre eles. Hitler, COMO É UM FETICEIRO, manter-se ia provavelmente à parte, não querendo saber da briga. Sente-se impotente, porque estará sem o seu povo alemão. Mussolini e Stalin, sendo ambos cacique, disputariam provavelmente a posse do alimento e da bebida, e Stalin, sendo o mais rude e o mais duro dos dois, ficaria provavelmente com tudo".
Amante inveterado das tipologias -devemos a ele a célebre classificação das personalidades introvertida e extrovertida-, Jung diz que CACIQUE E FETICEIRO eram os dois tipos básicos de homens de poder na sociedade primitiva. 
O cacique tinha sobre seus competidores a vantagem de ser FISICAMENTE mais forte. Já o feiticeiro, ou pajé, não era forte em si mesmo, mas "em razão do poder que as pessoas projetavam nele". Essa diferença se refletia na partilha do poder político e religioso na tribo. O imperador transpirava autoridade FÍSICA no comando de seus soldados. O feiticeiro era "o vidente, detentor de pouco ou nenhum poder físico mas na posse de um poder real que, por vezes, suplantava o do imperador, porque as pessoas concordavam que ele era possuidor de magia - isto é, de uma habilidade sobrenatural. Ele podia, por exemplo, ajudar ou obstruir o caminho para uma vida feliz após a morte, proscrever ou amaldiçoar uma pessoa, uma comunidade ou toda uma nação e, através da excomunhão, criar nas pessoas grande desconforto ou dor".
Musculosos e brutos, Mussolini e Stálin (este, um avatar de Gengis Khan, um rude campônio que lembra um "tigre dente-de-sabre siberiano") parecem despertar em Jung bem menos interesse do que Hitler. Interesse, bem entendido, não de um ingênuo apoiador, mas de um observador das modernas irrupções de potências psíquicas, antes chamadas de deuses e demônios, que a civilização burguesa acreditava fazerem parte do passado morto e enterrado da humanidade primitiva. 
O jovem Adolf  Hitler, órfão do odiado pai e da idolatrada mãe,  perambulava por Viena assoprando bolhas de sabão de sonhos sobre sua futura grandeza de artista. Tinha tudo para afundar numa existência definitivamente insignificante, se a História não o tivesse empurrado, e junto consigo esse ar distante, essa fragilidade devaneante, para a posição mágica de "o espelho do inconsciente de todo alemão", segundo Jung. 
"Fiquei especialmente impressionado quando vi retratos dele feitos durante a crise da Tchecoslováquia; havia em seus olhos a expressão de um vidente.
Não há dúvida que Hitler pertence à categoria dos feiticeiros genuinamente místicos. Como alguém comentou a respeito dele no último congresso do partido em Nuremberg, nunca se viu coisa parecida neste mundo desde o tempo de Maomé".
Com este recorte da histórica entrevista "Diagnosticando os Ditadores", a ser sucedido em breve por outras passagens comentadas, abro uma frente de discussão que há anos me interessa explorar melhor, as dimensões "esotéricas" do nacional-socialismo. O horror do que o nazismo veio a ser, e o apego dos analistas ao intelectualismo das chaves político-econômicas, são fatores que, por excesso de razão ou por justa, mas sentimentalista indignação, inibem a compreensão objetiva desta faceta oculta de um dos movimentos mais avassaladores da história mundial.
 E, assim como Freud nos ensina ao diferenciar as atitudes de "repetir" e de "elaborar", de um paciente analítico, assim também na História: mal compreendida, uma desgraça tem mais chances de se repetir. 
Hitler nos dá a deixa: "Aquele que viu no nacional-socialismo apenas um movimento político, não viu nada".
Veremos mais.