Friday, October 02, 2015

o nazismo esotérico (2) - o líder liderado


Jung, na entrevista que estamos comentando, menciona de passagem elementos arquetípicos essenciais do regime nazista, que nos merecerão atenção mais detida noutra ocasião: a suástica; a própria expressão "Terceiro Reich";  o nome da polícia política SA, Sturmabteilung, Tropas de Tempestade, que remete ao vento e, diz ele, ao deus dos ventos, Wotan, o Dionísio germânico que já antes da guerra Jung notava ressurgir na imaginação coletiva do país, seja nos escritos de um Nietzsche ou nos sonhos e fantasias de neuróticos e psicóticos sob tratamento. 
Em substituição ao regime decrépito da República de Weimar, anêmica  pocilga da conversa fiada dos anões parlamentares, incapaz de fazer frente à crise econômica e à humilhação nacional após a derrota de 18 e o criminoso Tratado de Versalhes, eis que a ALEMANHA SECRETA (geheimes Deutschland) era chamada das cinzas, liberta pelo seu profeta, "sob os estandartes do vento, da tempestade e do vórtice", para um reencontro consigo própria, com seu destino, sua grandeza ferida, em perigo, mas não eliminada de vez pelos focos internos e externos de corrupção e opressão. Sabemos bem as consequências dessa estratégia quando traduzida cruel e grosseiramente nos bodes expiatórios do delírio ressentido. Mas esse mecanismo restaurativo em si é natural à alma humana, levando seja à auto-afirmação no combate espiritual e amplexo erótico com a Verdade, seja à degeneração obscena do fanatismo.
Ora, todo fanatismo, Jung não se cansa de ensinar, tende a ser uma forma de reprimir os assédios da dúvida. A pressão da incerteza, quanto mais conspira para nos tornar mingau, exige respostas tanto mais duras, estreitando, solidificando, simplificando, dando coesão ao corpo despedaçado, mediante a rixa paranoica e as promessas de identidade implicadas no que Lacan chama ESTÀDIO DO ESPELHO,  arena nuremberguiana dos símbolos absolutos, indiscutìveis curativos totalitários (isto é, doadores de uma forma de Todo) ao estado fragmentário e hemorrágico das energias e da auto-estima. 
 A "característica que confere um colorido único à alma alemã é o COMPLEXO DE INFERIORIDADE TIPICAMENTE ALEMÃO - o complexo do irmão caçula, daquele que chega sempre um pouco atrasado para a festa", assim como a Alemanha, recém-unificada, estava atrasada política e economicamente no concerto das nações em luta pela hegemonia imperialista. 
Jung então volta ao ponto: "O poder de Hitler não é político; É MÁGICO". À luz da dicotomia estabelecida pelo livro (ele próprio repleto de temas völkish) Símbolos da Transformação, podemos inferir  que a autoridade do ditador alemão se calca não no pensamento racional, argumentativo, "diurno", mas nos afetos e imagens do inconsciente coletivo, paraíso ou pandemônio, conforme acionado pelo sopro sutil da inspiração poética ou, como no caso do drama alemão, pelo fardo das situações mais críticas da vida humana, por isso mesmo tão perigosas para o duro trabalho de domesticação instintual que viabiliza uma civilização digna desse nome.
Hitler é líder, mas também LIDERADO: escuta e obedece os comandos inconscientes aos quais nós, os bem ajustados, fazemos ouvidos moucos.
 "Hitler é como um homem que escuta atentamente um caudal de sugestões numa voz murmurada, provenientes de uma fonte misteriosa, e depois age de acordo com elas. No nosso caso, mesmo que o nosso inconsciente ocasionalmente nos alcance através de sonhos, temos racionalidade demais, cérebro demais, para nos deixarmos levar por ele, para lhe obedecermos. Esse é, sem dúvida, o caso de Chamberlain, mas Hitler escuta e obedece. O verdadeiro líder é sempre comandado.
Podemos ver isso funcionando nele. Ele próprio se referiu à sua Voz. A voz dele nada mais é do que o seu próprio inconsciente, no qual o povo alemão projetou seus próprios eus; ou seja, o inconsciente de 78 milhões de alemães. É isso que o faz poderoso. Sem o povo alemão, Hitler não seria o que parece ser hoje (...) com  sua percepção inconsciente do verdadeiro equilíbrio de forças políticas no interior e no mundo, tem conseguido até agora ser infalível", declarava nessa entrevista, repito, de 1938; fazia alusão à conquista do poder interno absoluto, com base no porrete mas tambèm no carisma e no reaquecimento econômico notàvel, e às decisões críticas que tornavam então a guerra mundial iminente: a invasão da Renânia em março de 1936 e, já em 38,  a anexação da Áustria e o ataque à Tchecoslováquia.