Tuesday, October 27, 2015

a poética do mito no rastejar para voar




"Voar, só alado ou encantado pela cobra que rasteja pelo chão": Chico César , em "Reprocissão", se valendo da complexio oppositorum, conjugação dos opostos (voar / rastejar, ave / serpente) que é uma das dimensões universais da experiência religiosa, como veremos no curso da USP que começa quarta que vem. O paradoxo que subverte com poesia -poética do mito- o prosaísmo de nossas certezas, que quebranta nossas expectativas de segurança lógica, parece ser um ingrediente da aventura da iluminação espiritual, toda ela ambivalente porque requer a encarnação do Sagrado no profano, a descida do Alado Amado no solo seco e acidentado de nossa vida, em que nossa alma, o absolutinho, filho do Absolutão, rascunha seus primeiros voos de regresso, bicando a casca de seu ovo de águia em meio aos riscos, males e imperfeições que rastejam e nos retraem e cercam com suas leis da gravidade de miséria e ilusão.Tais serpentes porém somos nós, como a águia que luta para levantar voo. Que elas abençoem tal decolagem com o encanto e o vigor de suas poções, veneno mortal para o covarde, remédio redentor para o candidato decidido a cumprir suas provas e tarefas de metamorfose.