Saturday, October 31, 2015

Resenhas para a Folha, 31/10/15



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES

O CIRCUITO DOS AFETOS
De vigor jovial tão espantoso quanto a  maturidade intelectual, o filósofo e colunista da Folha Vladimir Safatle dá um novo e poderoso passo como um dos nossos maiores pensadores contemporâneos. Retoma e expande  sua já conhecida articulação magistral entre a tradição dialética, teoria social e psicanálise, e propõe “a filosofia necessária para uma teoria política da transformação”, em tempos de crise do capitalismo e das velhas alternativas revolucionárias.
Para tanto, mostra a conexão entre os modelos hegemônicos de poder  e (des) ordem social e determinadas configurações afetivas do “corpo” pessoal e político . E aponta a necessidade de  superação do individualismo moderno, calcado que é na lógica ilusória  e agressiva que já Lacan discutia ao pensar a gênese do eu no estádio do espelho.
 De  Hobbes aos atuais brados securitários e gozo sensacionalista em torno da violência cotidiana e terrorista, o medo, recalque artificial de nosso verdadeiro desamparo (Freud), é imposto como afeto determinante de uma vida -social e subjetivamente- repressiva, estagnada e infeliz.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO



 METAFÍSICAS CANIBAIS
 Esta –a minha- é uma pequena resenha sobre outra  bem maior, em todos os sentidos. Maior e mais maliciosa, porque borgianamente se dedica a um livro imaginário, que o próprio resenhista, Eduardo Viveiros de Castro, gostaria de ter escrito: “O Anti-Narciso”, em homenagem ao “Anti-Édipo” de Deleuze e Guattari. 
Consagrado no Brasil e fora, o antropólogo  carioca aprofunda a sua teoria do perspectivismo, segundo a qual para os povos ameríndios  o mundo é povoado de muitas espécies que se veem, cada qual, como as verdadeiramente“humanas” em comparação com as demais. 
O livro, ou a “resenha”, explora com maestria as  implicações “antinarcísicas” dessa metafísica para a antropologia (não só a disciplina acadêmica, mas a teoria geral do humano) do Ocidente. Mais que isso, se indaga sobre o quanto o fazer e pensar etnológicos, apesar do “carma” colonialista das origens, não é estruturalmente antinarcísico, influenciado diretamente pelo “Outro” -que assim é mais que objeto, é eixo perspectivista que nos ensina a achar bonito também o que não é espelho.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

FONTES PASSIONAIS DA VIOLÊNCIA
Esse novo volume da série “Mutações”, de Adauto Novaes, é de especial impacto  para pensarmos, como ela propõe, de ângulos novos, e com rara densidade (vertida porém em ensaios acessíveis e agradáveis), os impasses do contemporâneo. Tem origem em conferências de intelectuais brasileiros e franceses ano passado, no bojo do centenário de uma guerra que ainda “não terminou”, em certo sentido. O conflito mundial de 1914, embora muitas vezes rebaixado a preâmbulo do apocalipse hitlerista, foi decisivo para a transformação da ideia e da escala da violência, essa paixão ancestral agora a serviço de uma civilização tecnocientífica que embrutece a capacidade reflexiva e ética do ser humano. Entre os autores convidados, destaques como Marcelo Coelho, Vladimir Safatle, Franklin Leopoldo e Silva e Fréderic Worms, um dos maiores especialistas mundiais na obra de Henri Bergson.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO