Wednesday, October 07, 2015

sobre falar sozinho


Lendo sobre os filósofos antigos, nós descobrimos que o DIÁLOGO não se resume à conversação pública ao estilo dos textos socráticos. O próprio Sócrates era mestre do diálogo com os outros PORQUE também mestre do diálogo consigo, vide os testemunhos sobre as horas a fio que era capaz de passar em pé e absorto na "dialética" com seus pensamentos. 
E não era exceção.  Perguntado sobre que benefício extraiu da iniciação à filosofia, seu discípulo Antístenes não hesitou em dizer: "Aquele de poder conversar comigo mesmo".  Outras correntes também compreendiam o valor deste "exercício espiritual" como forma de procura da meta do aprimoramento pessoal, essência da filosofia tal como compreendida pelos antigos:
"Havendo se surpreendido com Pirro [um dos pais da doutrina cética] falando consigo mesmo, perguntou-lhe por que fazia isso. Ele respondeu que se exercitava para ser bom. Sobre Filo de Atenas, disse Diógenes Laércio: "Filo frequentemente falava consigo mesmo, é por isso que Timão lhe disse: 'Ó Filo, aquele que longe dos homens, conversava e falava consigo mesmo, sem preocupação com a glória e com as disputas. Ou ainda a exortação do epicurista Epiteto: "Homem, se tu és alguém, vá caminhar sozinho, conversa contigo mesmo".
 Claro que nem todo mundo que fala sozinho está filosofando -pode estar apenas delirando, ou numa DR estéril com suas próprias burradas, dois casos em que o bom conselho de amigos ou o auxílio de um profissional da escuta (psicanalista) ou do diálogo (psicoterapias) são mais que recomendados. Mas não se considere um ET, ou candidato à camisa-de-força, pelo mero fato de sua língua ter aquela coceirinha súbita de "pedir a palavra" para lhe dizer umas verdades que você só poderia escutar de si mesmo, mesmo se as ideias em si pudessem ser faladas por outrem. Há "espiritualidade" filosófica nesse sopro que te impele a esse diálogo. E há poesia também, tal como nos diz Mário Quintana na conhecida citação:
   “A poesia é uma maneira de falar sozinho. Porque a gente, quando está conversando, fala sobre coisas, sobre a vida deste, a vida daquele, acontecimentos do dia. Quem sabe vê uma mancha muito interessante no muro, num muro sépia, uma mancha verde, vê uma nuvenzinha lá no céu perdida. Então, se eu disser isto, você fala: ‘Coitado, está louco’. Então, tudo que não é matéria de fofoca é poesia".