terça-feira, outubro 13, 2015

Sócrates, parteiro e escultor


Afora o Cristo, é difícil imaginar figura mais decisiva, fascinante e enigmática na história do espírito ocidental do que Sócrates. Dele quase nada sabemos, o que não deixa de ser uma situação por si só "socrática", se considerarmos o seu lema de que só sabia que nada sabia - ou quase nada, com exceção do amor, como diz no Banquete. 
Do pouco que sabemos da sua pessoa, ou melhor, da sua FIGURA, tal como moldada sobretudo pelos "evangelhos" do Logos socrático legados pelo discípulo Platão-, consta que era filho de uma parteira e de um escultor. E que a profissão da mãe lhe servia de analogia, muitas vezes, para definir seu ofício de filósofo, que praticava -e ia inventando- na cadência de suas andanças e conversas com a gente comum pelas praças de Atenas. O que as mãos da mãe faziam por outras mães, seu espírito fazia por outros espíritos: o auxílio para as dores do parto. Seu "nada saber" era a tela em branco que lhe permitia, ao invés de responder, perguntar (sobre justiça, coragem, piedade, beleza e assim por diante), o que pouco a pouco levava o interlocutor a descobrir que também ele "nada sabia", e se despojar das aparentes certezas, que na verdade mascaravam a mera opinião por hábito e a muleta da crendice (não por acaso Sócrates foi acusado e morto pelas autoridades públicas porque  "corruptor" dos sacrossantos valores estabelecidos). 
Mas o que eu gostaria hoje de ressaltar é que pouco se atentou para o valor de símbolo filosófico que há profissão de seu pai. Talvez porque só mais tarde, com o neoplatônico Plotino, essa dimensão tenha ficado mais explícita: "Esculpir a própria estátua" é, para ele, a metáfora por excelência da autorrealização a que se destina todo candidato à vida filosófica. Mas atenção! Isso não significava algum tipo de estetismo narcísico ao estilo moderno, em que o vazio de personalidade é escamoteado pela montagem artificial de um personagem conforme ao nosso capricho, vaidade ou cálculo interesseiro do que convém aparentar para os outros.
Para os antigos, a escultura é, mostra Pierre Hadot, uma arte que RETIRA, em contraste com a pintura que é uma arte que "acrescenta". Está aí a base da célebre asserção de Michelângelo de que fazia suas obras tão somente RETIRANDO do bloco de mármore bruto  o que era desnecessário, o que não pertencia, à escultura que ali dormitava como forma potencial... ou que esperava por nascer, diríamos nós para realçar a analogia entre os ofícios do pai e da mãe com o do próprio Sócrates, parteiro e escultor, cumpridor do imperativo "é necessário nascer de novo" que outro revolucionário espiritual viria a declarar antes também de ser levado a sua respectiva guilhotina pelos poderosos e falsários de sua época.
Entendemos melhor os termos aparentemente mórbidos de Sócrates no Fédon, quando diz que filosofar é "aprender a morrer". A  morte sempre iminente, o não sabermos se este dia ao findar nos terá entre suas testemunhas, era um recurso pedagógico das diversas escolas filosóficas, vide o convite epicurista que ressoa na sala de aula do professor Robin Williams, Orfeu de flauta socrática trazendo ao Hades cântico de ressurreição para seus jovens pupilos, antes ensurdecidos pela sociedade dos poetas mortos: carpe diem, aproveite o dia!  
Mas este "aprender a morrer", no caso de Sócrates, ganhava também uma tintura metafísica distinta do materialismo epicurista, e que repercutiria poderosamente na tradição monástica cristã.
 Se o grão de trigo não morre, não tem como dar fruto, dirá o heleníssimo evangelho de São João. Assim também, para a escola de Platão, a alma não se descobre imortal por mero ouvir falar, por acreditar nessa ou naquela doutrina revelada, mas por experiência própria, ao se livrar, aqui e agora, de tudo o que nela há de "mortal", no duplo sentido do termo: apegos, ilusões, achismos, raivas, cobiças, toda sorte de corrupções, cumplicidade com a imbecilidade das massas e de seus demagogos (o impulso fundamental e fundante da filosofia de Platão foi o choque e desalento dele com o assassinato de Sócrates pela "democracia"). Por isso o filósofo parteiro é também escultor: para dar à luz à verdadeira vida, à essência imortal, ele limpa, raspa, quebra, molda, escolhe, descarta e forma, reforma, transforma, desvelando a estátua que havia desde sempre no mármore, a ideia do Belo perto da qual o toda beleza material parece uma mímese grosseira - daí a ironia, ou segunda ironia (aparência para inverter e assim sublinhar a essência), de que o mestre que só sabia nada saber ser tido como fisicamente feio. Pedagogo da beleza suprassensìvel mas camuflado na casca de bufão pançudo, que intrigava e seduzia também pelo paradoxo de sua semelhança -como a sublime com o grotesco- a Sileno e os sátiros de Dionísio, meio humanos, meio animais, peritos selvagens naquilo que, lembremos, também Sócrates dizia ser sua única sabedoria, meio e meta entre todas, via régia já no carnal mas com e rumo ao espiritual: o amor.