Sunday, November 29, 2015

Resenhas para a Folha, novembro de 2015

FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
28/11/2015
DRAMATURGIA ELIZABETANA
Em mais um legado deixado pela saudosa rainha da crítica teatral brasileira, Barbara Heliodora (morta em abril), saem suas traduções de autores que foram precursores imediatos e fundamentais de Shakespeare, embora inevitavelmente eclipsados pela glória do Bardo, amor maior da carreira de Heliodora. 
Trata-se de Thomas Kyd ("A Tragédia Espanhola") e sobretudo de Christopher Marlowe, com  "Tamerlão" e "A Trágica História do Doutor Fausto", primeira das grandes versões do mito literário que, de Goethe a Thomas Mann, de Fernando Pessoa a Guimarães Rosa, viria a  sintetizar a aventura existencial do homem moderno, em sua  grandeza e abismos "mefistofélicos". 
O título da coletânea alude ao peculiar teatro renascentista inglês, marcado pela celebração não só da emancipação do homem frente à teocracia medieval, mas também da auto-afirmação política e cultural  do país  durante o reinado de Isabel I,  entre 1558 e 1603.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO
BEIJE-ME ONDE O SOL NÃO ALCANÇA 
“A história é um romance verdadeiro”, Mary del Priore gosta de dizer, evocando Paul Veyne. E é o que demonstra com brilhantismo neste seu primeiro romance histórico.  Ela reconstitui imaginativamente,  mas não sem a precisão de pesquisadora (recorrendo a farta documentação de época, sobre este caso verídico), o  triângulo amoroso entre um conde russo, a herdeira de um barão do café no Vale do Paraíba e uma ex-escrava, no Brasil imperial. Afora a riqueza humana dos personagens e do drama em si, o livro nos oferece, com linguagem fluente e fidedigna (até nos palavrões, colhidos na poesia erótica e pornográfica do século 19), uma preciosa chave de acesso às contradições e hipocrisias de um pais que nascia para a era moderna mas ainda “embriagado de escravidão”.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ROSA CANDIDA

O que seu nome tem de impronunciável, sua escrita tem de deliciosa: vale a pena de deixar embriagar pelas cores, odores e delicadezas desta narrativa da islandesa Audur Ava Ólafsdóttir. Livro que fez dela uma celebridade literária internacional –já foi traduzido em mais de 20 línguas-  trata-se de um “romance de formação” sobre um jovem   apaixonado pelas flores, especialmente por essa variedade rara de rosa de oito pétalas. Um amor em comum com a mãe que acabou de perder num trágico acidente. Aturdido, ele  deixa o pai quase octogenário, o gêmeo autista e a filha recém-nascida de uma relação sexual casual, sai do país para trabalhar no jardim de um mosteiro.  Segue-se um processo de autodescoberta que o fará  florescer de menino em homem.  
ANTÔNIO: O PRIMEIRO DIA DA MORTE DE UM HOMEM
Sexo é filosofia. É arte, é música, é trovão, é tempestade, é harmonia ou caos. Vista grossa: tudo é sexo. Este era o tipo de pensamento que andou relampeando nas cabeças de Manuela, Nádia e Antônio nos quatro dias que eles ficaram dentro do quarto de Nádia. Quatro dias.” A celebração a Eros, não só é tema, mas é motor narrativo  e intensa experiência propiciada por este que é o romance de estreia de Domingos Oliveira, mas repleto de marcas que nos transportam à atmosfera de filmes. Em foco (quase se poderia dizer, em tela) um professor de antropologia sexagenário, escritor frustrado que a mulher troca por um namorado bem mais novo, mas que tem a vida convulsionada por uma “mixture blessing” (bênção ambígua) que tantos de nós homens pedimos aos céus: a paixão tórrida por duas lindas jovens, uma delas ex-aluna.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ASSIM FOI AUSCHWITZ
Primo Levi (1919-1987) era um químico de 24 anos quando foi deportado para o campo de extermínio nazista que Adorno tomou como lápide da civilização. Da experiência trágica, sobreviveu e  renasceu  como escritor dedicado à denúncia dos horrores que viu e sofreu numa daquelas máquinas de morte e desumanização de agressores e vítimas. Nessa coletânea (entre 1945 e 1986) de testemunhos dele e de outro ex-prisioneiro, o médico Leonardo de Benedettia  indignidade macabra do que têm a relatar é tanto mais impactante porque vertida numa prosa sóbria, sem sentimentalismos, mas com coragem para, detalhando as atrocidades, contrariar a tendência, no pós-guerra, a um certo clima cultural de “deixa disso” e olhemos “para a frente”, de esquecimento e relativização. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

FORMALISMO & TRADIÇÃO MODERNA
Conforme avança o belíssimo projeto editorial da É Realizações  de relançar José Guilherme Merquior, o leitor tem a oportunidade de matizar uma rotulação ideológica  apressada desta “obra” (para além da soma de seus livros) como a de um mero, por mais que sofisticado, liberal-conservador. Um livro como este, de 1974, mostra a densidade da influência em Merquior de um certo tipo de crítica cultural de esquerda, ao estilo de Adorno e Benjamin. É de lastro frankfurtiano sua crítica  ao kitsch (o mau gosto pretensioso e feito para as massas), embora seja discutível se Merquior é justo em incluir nesse conceito condenatório desde “99% da crítica literária dita estuturalista” ao teatro de Ionesco e Arthur Miller. O genial ensaísta brasileiro, numa linha que faz lembrar Antonio Candido na fina articulação de literatura e sociedade, volta suas baterias também contra a degradação formalista da ideia de “forma”, desconectada das tendências e conflitos histórico-culturais.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO