Saturday, November 14, 2015

sabedoria para tempos de sordidez


O horror e podridão da História voltam a dar as cartas, mostrando a canalhice de que a espécie humana sempre foi, é e será capaz. Nesse mundo em que, além de pretexto da fantasia sanguinária dos monstros, o divino se revela uma ideia vazia; em que contar com deuses,  ajuda divina, falar em "orar pelas vítimas", soa no mínimo à velha pia fraus, é tempo de insistirmos, no silêncio e solidão da consciência, na busca da sabedoria.
 Paciente, perseverante, consciente de que é um ideal transcendente. Não porque "celeste", mas porque tão mais autenticamente humana do que muitas vezes conseguimos ser, como espécie e indivíduos. Porque tão adiante de nós mesmos, superior às nossas possibilidades normais, se não forem trabalhadas, exercitadas no dia a dia. Mesmo nas situações mais desanimadoras, em que a besta-fera sórdida domina. Aliás, sobretudo nelas, tomando-as como a matéria bruta (ou brutal) para nosso esforço, resistência e invenção.
 A sabedoria é um estado, não uma posse, e se define em ações, nego não "nasce" sábio, como não nasce herói nem covarde, nem homem nem mulher (no sentido existencial que madame Simone de Beauvoir postulava). 
O filósofo tem na própria palavra que o define a distância em relação à sua meta. Quem deseja não possui, desejo é falta e busca. Amar a sabedoria é querê-la, não "tê-la". É amá-la, quiçá fazer amor com ela, mas sem fazer dela jamais, como tampouco da mulher que amamos e com que façamos amor, "coisa" nossa. É não o casamento gordo e confortável dos "proprietários", mas a tensão, o risco, a aventura e o sempre querer mais da corte e do namoro. 
De encruzilhadas entre lucidez e estupidez se fazem as provações desta busca, entre as quais a congruência entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz: "A um velho homem, que lhe contava que escutava lições sobre a virtude, Platão respondeu: 'E quando começarás a VIVER virtuosamente?'. Não se pode fazer teoria sempre. É bem necessário, uma vez, enfim PASSAR AO EXERCÍCIO. Mas hoje se toma por sonhador aquele que vive o que ensina'" (Kant).