quarta-feira, dezembro 30, 2015

"Macbeth - Ambição e Guerra"


Dois MONSTROS em cena, Fassbender e Marion Cotillard,em "Macbeth - Ambição e Guerra", pra minha despedida das telonas em 2015, na tarde deste dia 30, e pra me recordar que nem tudo que é "monstruoso" na història è sinônimo de obra do capeta, ao contrário do que o próprio Macbeth veio a acreditar, em profissão de fè diabòlica que é mais retrato DELE, de sua alma autocondenada quando optou pelo Mal, simbolizado no assassinato do bom rei Duncan: 
”A vida nada mais é do que uma sombra, um pobre ator que se pavoneia no palco, e então não é mais ouvido. É uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada”.
Macbeth FEZ a historia, digo, sua história, ser como a definiu aqui. Na falta de uma natureza humana fechada como a das andorinhas e jacarés, cada indivíduo e época moldam uma VERSÃO do que seria esta natureza que não há, que é "segunda natureza", quando surge a cultura. E moldamos essa suposta essência em função dos valores que imprimimos à nossa existência. Por isso Sartre dizia que "a existência precede a essência". Seu próprio universo de referência é de uma laicidade ainda mais radical do que a do tempo de Shakespeare; este é saturado de uma sacralidade ainda que em colapso, aberta para o futuro (a "morte de Deus") e para o passado remoto, o mundo da magia, figurado pelas três bruxas que anunciam ao heroico general que ele viria a ser o novo rei da Escócia. 

As bruxas porém não ordenavam, nem viam como inscrito no destino, que a tomada do poder fosse como foi, pelo regicídio. Foi nessa brecha que certo "livre arbítrio", impulsionado pelas provocações de Lady Macbeth, se impôs (com o que haja de paradoxal nesta "imposição" de que temos de ser livres). A decisão de matar, de romper a lealdade de súdito, guerreiro e parente próximo do rei, foi a "desmedida" trágica com que o herói interpretou e deliberou, diferentemente (e esse é um signo da secularização) de um Orestes ou um Édipo na tragédia grega. Mais alguns séculos, e o herói da vida moderna se definiria pela completa REVOLTA, pela insurgência CONTRA o que quer que se pretenda representante de vontades transcendentes, que para nós perderam a pureza, a confiabilidade de outrora, se reduzindo a ópio ideológico (Marx), vontade de poder (Nietzsche), delírio (Freud) ou má-fé (Sartre).  
Para além do mérito intrínseco de um e outro desses dispositivos de desmistificação do mítico, Shakespeare, operando em fronteiras mais ambíguas, nos deixou um alerta que é fundamental para policiarmos nossos ISSO NADA MAIS È QUE, nossas declarações de fè generalistas; por mais que, sim, o pessimismo de Macbeth tenha um apelo quase irresistível se considerarmos a vida com a seriedade devida, melhor não abrir mão da prudência cética e, como aliás o próprio Nietzsche recomenda, ver nas filosofias sobretudo confissões, como termômetros da saùde de nossa pròpria consciência, de sua fidelidade ou não à nobreza que Macbeth deixou ser esmagada pela ambição desmedida.

adeus, ano velho

Um Velho
-Konstantinos Kaváfis, trad. José Paulo Paes-
No meio do café ruidoso, sem ninguém,
por companhia, está sentado um velho. Tem
à frente um jornal e se inclina sobre a mesa.

Imerso na velhice aviltada e sombria,
pensa quão pouco desfrutou as alegrias
dos anos de vigor, eloquência, beleza.
Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece.
No entanto, o seu tempo de moço lhe parece
ser ainda ontem: faz tão pouco, faz tão pouco…
Medita no quanto a Prudência dele rira;
em como acreditara sempre na mentira
do “Deixa para amanhã. Há tempo.” Que louco!
Pensa nos ímpetos que teve de conter,
nas alegrias frustras por seu tolo saber,
que cada ocasião perdida agora escarnece.
Porém, tanto pensar, tanta recordação,
põem o velho confuso, e sobre a mesa, então,
daquele café, debruçado, ele adormece.

domingo, dezembro 27, 2015

sábado, dezembro 26, 2015

sexta-feira, dezembro 25, 2015

quarta-feira, dezembro 23, 2015

"Garota Sombria Caminha Pela Noite"



"Sabor da Vida"

Eis um filme que se faz ótima viagem e companheiro de viagem para reflexões e balanços típicos de um fim e recomeço nas revira-e-voltas do tempo. Japonês, nele sorvemos, como as panquecas amalgamadas à mágica pasta de feijão da misteriosa senhorinha que bate à porta de um amargo doceiro, o sabor xintoísta da reverência à vida, amalgamado à consciência zen da impermanência de tudo. Na encruzilhada entre a mecânica fria das relações capitalistas (parênteses: amo uma Ayn Rand, que aliás é maior que uma apologista do capital, mas nunca vou me conformar com a recém-empossada chefete de um café da Paulista e seu timing brutal de demitir funcionárias sérias, de longo tempo de casa, a uma semana do natal) e a sensibilidade aos laços primários entre as pessoas e delas com a natureza, tal como postos em ato na alquimia da culinária e na contemplação das cerejeiras. Lindo!



terça-feira, dezembro 22, 2015

segunda-feira, dezembro 21, 2015

domingo, dezembro 20, 2015

Contra os sábios mentecaptos


19/12/15
FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
19/ 12/ 15
VAMOS AO QUE INTERESSA
O que sua lucidez implacável ilumina de nossa "era da brutalidade" , seu humor -outro nome da inteligência- torna menos insuportável para nossa travessia. Nesta impressionante amostra das suas colunas para a Folha, desde 2008 até a atualidade, o cientista político português João Pereira Coutinho mostra que "o que interessa" é defender os grandes valores civilizatórios, a começar da liberdade,  contra o que os ameaça, dos terroristas islâmicos à corrupção bolivariana, passando pelos colaboracionistas intelectuais, o que ele chama de os "sábios mentecaptos", cuja hipocrisia, medo da irrelevância e frouxidão moral abrem caminho para as barbáries. Com extrema agilidade mental e prosa envolvente, Coutinho nos leva pela mão (se a metáfora não soar paternalista demais para um intelectual cujo foco e talento é nos educar à independência) por questões polêmicas como o "racismo às avessas" dos defensores das cotas para negros, a censura a Monteiro Lobato, o atentado contra o "Charlie Hebdo", em Paris.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO


sexta-feira, dezembro 18, 2015

Ayn Rand e o vômito brasileiro

Chego quase às lágrimas pensando na dor da mãe que viu, há pouco, a filha adolescente tomar um banho de vômito de uma massa gorda, que parece atender por algum nome humano, mas que na condição bêbada em que estava nada responderia, senão com um sorriso de mongolóide com que reagia aos protestos até brandos, por ciclos de indignação que só chegaram à palavra "seu porco", da pobre mãe. Sim, algo do Cristo que chora vendo sua Jerusalém me incita, não a mim, ao "Cristo em mim", como diria São Paulo, o Apóstolo, a chorar pela São Paulo, a cidade, e pelo país que ela resume tão bem no Mal puro que acabei de testemunhar. Estive perto, ainda que a salvo. Pouco mais perto estivesse e provavelmente não estaria em casa agora, mas num hospital fazendo exames, desesperado, como graças a Deus essa jovem não ficou, ao imaginar as imundícies daquele cara invadindo minha boca, ouvidos, olhos. As imundícies físicas e psíquicas, aquele sorriso leso, aquela existência de que fomos todos obrigados a tomar ciência, no jato absurdo, desumano, grotesco, que deve estar no chão até agora, esperando pelas humildes funcionárias encarregadas de limpar esse tipo de rastro da escória humana. O dia porém não foi de todo agônico; alegria pelo desfecho da leitura de A Nascente, de Ayn Rand; devo agora reler metodicamente (não quero perder contato, não ainda, com este mundo alternativo), mas o arrebatamento foi pleno, comparável ao que leituras juvenis me trouxeram, tipo Hermann Hesse, Thomas Mann, Dostoiévski. As palavras do protagonista, quase ao final, sobre o criador e o parasita, o homem livre, nem servo nem senhor, e a lesma viscosa que "vive" se arrastando, sujando o mundo com sua mera presença pestilenta, ressoam mais nítidas, por absoluto contraste, quando penso na barbárie que acabo de presenciar no metrô, cenário metonímico da degradação dos espaços e intervalos (físicos e psíquicos) necessários entre os seres humanos para que não sejam mero gado de tiranos imbecis como suas ovelhas: "A civilização é o progresso em direção a uma sociedade de privacidade. A existência inteira de um selvagem é pública, governada pelas leis de sua tribo. A civilização é o processo de libertar os homens uns dos outros".

quarta-feira, dezembro 16, 2015

os islamistas estão chegando?


Em condições normais de temperatura e pressão eu acharia apenas surpreendente e bonito. Para o conhecedor das diretrizes ideológicas da assim chamada Nova Ordem Mundial, e em especial para o leitor de "Submissão", de Houellebecq, a imagem - o Conjunto Nacional, um dos ícones da cidade, na Avenida Paulista,  transformado em "mesquita" comercial para a comemoração do Natal- toma um aspecto ligeiramente mais inquietante, talvez comparável ao que um adepto de Mitra sentisse ao ver seu sagrado 25 de dezembro ser festejado mas reinterpretado pelo cristianismo que vinha lhe tomar o lugar como força dominante.

a disputa das drogas


O cartoon acima, com que topei hoje no facebook, é interessante como ilustração de um dos tipos clássicos de falácia, ou fuga do debate lógico, que é contrapor ao seu acusador uma outra acusação, que de preferência soe mais grave. 
O fundamental è não precisar responder pelo que VC fez. O nome dessa esperteza é ˜Tu quoque (você também)". 
atual pocilga política brasileira, você não passa um dia sem topar com doses cavalares desse expediente. 
No caso do cartoon, outra esperteza é fazer a crítica a um costume, o consumo de maconha, ser desferida por alguém obviamente sem autoridade moral nenhuma para tanto. O que nos remete a outra falácia fundamental para quem deseja "vencer um debate sem precisar ter razão", no estilo que Schopenhauer zueiro ensina em livro sobre a erística (arte do combate de ideias, que para o bicho homem passa muito longe de ter por alvo a vitória da sensatez). 
segunda falácia è essa" ? O estreitamento das opções em disputa. O consumo de maconha se legitima porque seu adversário é um asqueroso viciado em junk food etc. Náo há alternativas fora deste espectro do possível, é escolher entre este preto ou este branco, como ou é Cunha ou é Dilma, ou é petralha, aceitando as coisas como estão petralhamente, ou é golpista. 
Você não destrói o gosto da massa pela alta cultura dizendo que Ibsen é uma merda, mas admitindo que os futucadores de cu (refiro-me à famigerada peça dos "macaquinhos", que tanta celeuma gerou esses dias pelo gosto duvidoso e apoio de verbas federais) fazem uma arte que merece o mesmo nome do que Ibsen fazia. Você se legitima não pelo que é ou tem a oferecer, que vc sabe ser uma bosta, mas pelo rebaixamento do nível de expectativas do respeitável público.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

inútil comédia demo-crática








Na morna passeata desta tarde, na Paulista, o único dos caminhões parados que me arrancou do torpor estático em que eu caminhava era o que tocava este clássico do Ultraje. "Inútil". Nunca a ouvi com tamanha sensação de atualidade. É de 1984, nem havíamos voltado a votar para presidente ainda, mas parecia feita para essa passeata, para a falta de vergonha na cara coletiva que nos trouxe até a presente sarjeta, da qual não há sinal de salvação à vista, se considerarmos o leque de representantes que "temos por hoje" para seguir nessa comédia demo-crática, não por acaso demonizada por tantos pensadores, e tão diversos em tantas coisas mas uníssonos no asco e distância cética dos espetáculos sadomasoquistas do rebanho no poder. O que diriam vocês, caros Platão, Nietzsche, de um caso como o brasileiro, dado o nível de política eleitoral possível com esses representantes e esses  representados? Com essa pátria educadora e mestra como poucas em fazer de uma música como "Inútil" a única verdade nesta terra da mentira?


INÚTIL
-Ultraje a Rigor-

A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dente
Tem gringo pensando que nóis é indigente

(Refrão)

Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil

A gente faz carro e não sabe guiar
A gente faz trilho e não tem trem prá botar
A gente faz filho e não consegue criar
A gente pede grana e não consegue pagar

(Refrão)

A gente faz música e não consegue gravar
A gente escreve livro e não consegue publicar
A gente escreve peça e não consegue encenar

A gente joga bola e não consegue ganhar

domingo, dezembro 13, 2015

ABC de Ayn Rand- Estrutura


"Ele [Gail Wynand] largou o carro e subiu a colina a pé. Viu Roark entre os homens. Ficou do lado de fora e observou a maneira como ele andava através da estrutura, o modo como virava a cabeça ou erguia as mãos, apontando. Notou a forma como Roark parava: as pernas afastadas, os braços retos ao longo do corpo, a cabeça erguida; uma POSTURA INSTINTIVA DE CONFIANÇA, DE ENERGIA MANTIDA SOB CONTROLE SEM ESFORÇO, um momento que dava ao seu corpo a SIMPLICIDADE ESTRUTURAL de seu próprio prédio. A ESTRUTURA, pensou Wynand, é UM PROBLEMA SOLUCIONADO DE TENSÃO, DE EQUILÍBRIO, DE SEGURANÇA ENTRE FORÇAS QUE SE OPÕEM".
Ayn Rand,
A Nascente, vol. II

sexta-feira, dezembro 11, 2015

um esgoto em forma do mapa do Brasil


Esgoto jorrando na Barra da Tijuca, a menos de um ano dos Jogos Olímpicos

"Ele não conseguia dar nome ao que queria da vida. Sentia-a o ali, nessa solidão selvagem. Entretanto, não encarava a natureza com a alegria de um animal saudável, como um ambiente final e apropriado. Encarava o com a alegria de um homem saudável, como um desafio, como instrumentos, meios e materiais. Portanto, sentia RAIVA POR ENCONTRAR A EXALTAÇÃO SOMENTE EM UMA REGIÃO DESABITADA, e porque tinha que perder esse grande senso de esperanca quando voltasse aos homens e ao trabalho dos homens. Pensou que isso não estava certo; que o trabalho do homem deveria ser um passo mais elevado, um aperfeicoamento da natureza, não uma degradação. Ele NÃO QUERIA DESPREZAR OS HOMENS; QUERIA AMÁ-LOS E ADMIRÁ-LOS. Mas temia a visão da primeira casa, ou do salão de sinuca, ou do pôster do filme que encontraria em seu caminho".
AYN RAND,
A NASCENTE, vol. II

quarta-feira, dezembro 02, 2015