sexta-feira, dezembro 18, 2015

Ayn Rand e o vômito brasileiro

Chego quase às lágrimas pensando na dor da mãe que viu, há pouco, a filha adolescente tomar um banho de vômito de uma massa gorda, que parece atender por algum nome humano, mas que na condição bêbada em que estava nada responderia, senão com um sorriso de mongolóide com que reagia aos protestos até brandos, por ciclos de indignação que só chegaram à palavra "seu porco", da pobre mãe. Sim, algo do Cristo que chora vendo sua Jerusalém me incita, não a mim, ao "Cristo em mim", como diria São Paulo, o Apóstolo, a chorar pela São Paulo, a cidade, e pelo país que ela resume tão bem no Mal puro que acabei de testemunhar. Estive perto, ainda que a salvo. Pouco mais perto estivesse e provavelmente não estaria em casa agora, mas num hospital fazendo exames, desesperado, como graças a Deus essa jovem não ficou, ao imaginar as imundícies daquele cara invadindo minha boca, ouvidos, olhos. As imundícies físicas e psíquicas, aquele sorriso leso, aquela existência de que fomos todos obrigados a tomar ciência, no jato absurdo, desumano, grotesco, que deve estar no chão até agora, esperando pelas humildes funcionárias encarregadas de limpar esse tipo de rastro da escória humana. O dia porém não foi de todo agônico; alegria pelo desfecho da leitura de A Nascente, de Ayn Rand; devo agora reler metodicamente (não quero perder contato, não ainda, com este mundo alternativo), mas o arrebatamento foi pleno, comparável ao que leituras juvenis me trouxeram, tipo Hermann Hesse, Thomas Mann, Dostoiévski. As palavras do protagonista, quase ao final, sobre o criador e o parasita, o homem livre, nem servo nem senhor, e a lesma viscosa que "vive" se arrastando, sujando o mundo com sua mera presença pestilenta, ressoam mais nítidas, por absoluto contraste, quando penso na barbárie que acabo de presenciar no metrô, cenário metonímico da degradação dos espaços e intervalos (físicos e psíquicos) necessários entre os seres humanos para que não sejam mero gado de tiranos imbecis como suas ovelhas: "A civilização é o progresso em direção a uma sociedade de privacidade. A existência inteira de um selvagem é pública, governada pelas leis de sua tribo. A civilização é o processo de libertar os homens uns dos outros".