Wednesday, December 28, 2016

espécies em extinção


Espécies em extinção: baleias azuis, ararajubas, onças pintadas e grandes dias

Phosphorescent - Song For Zula (Cap. Fant)


Some say love is a burning thing, that it makes a fiery ring
Oh but I know love as a fading being
Just fickle as a feather in a stream
See honey, I saw love, you see it came to me
It put its face up to my face so I could see
Yeah, then I saw love disfigure me
Into something I am not recognizing


You see the cage it called; I said ‘come on in’
I will not open myself up this way again
I lay my face to the soil, and all my teeth to the sand
I will not lay like this for days now upon end

You will not see me fall, or see me struggle to stand
To be acknowledged by some touch from his gnarled hand
You see the cage it called; I said ‘come on in’
I will not open myself up this way again


You see the moon is bright in that treetop night
I see the shadows that we cast in the cold clean light

Now my feet are gold, and my heart is white
And we race out on the desert plains all night
See honey, I am not some broken thing
I do not lay here in the dark waiting for thee
No my heart is gold and my feet are light

And I am racing out on the desert plains all night

Some say love is a burning thing, that it makes a fiery ring
Oh but I know love as a caging thing
Just a killer, come to call from some awful dream

Ah and all you folks, you come to see
You just stand there in the glass looking at me

But my heart is wild and my bones are steel
And I could kill you with my bare hands if I was free

Uncle Noam




"Na medida em que existem, a opressão e a repressão são reflexos da natureza humana. O mesmo é verdade quanto à simpatia, solidariedade, gentileza e cuidado com os outros – e para algumas grandes personalidades, como Adam Smith, estas são as qualidades essenciais dos humanos. A tarefa das políticas sociais é desenhar os modos como vivemos e a estrutura institucional e cultural de nossas vidas, de forma a favorecer os aspectos benignos e suprimir os aspectos grosseiros e destrutivos de nossa natureza fundamental." -assim diz Noam Chomsky, o "uncle Noam" celebrado a todo 7 de dezembro, dia de seu nascimento, pela família do "Capitão Fantástico" Viggo Mortensen, nesse filme de contracultura, espécie de novo "Into the Wild", que resgata o que não só o humano dos homens, mas a América tem de mais benigno, construtivo, libertário, lado a lado com os aspectos "grosseiros e destrutivos" que ameaçam dar o tom no novo ciclo político que se inicia em janeiro. Que sintomático, e pelo menos consolador, que o Sol forte deste road movie nos acene do mundo aparentemente intangível da imaginação ao mesmo tempo em que os densos horizontes materiais parecem se fechar tão brutalmente no real cru, eu disse cru, aqui debaixo, o mundo dos Happy New Fears.

Sigur Rós, Varðeldur (Cap. Fant.)


"Captain Fantastic" - soundtrack



Monday, December 26, 2016

Queen & George Michael, `Somebody to love`


Somebody To Love
(Freddie Mercury)

Can anybody find me somebody to love?

Each morning I get up I die a little
Can barely stand on my feet
(Take a look at yourself)Take a look into the mirror and cry
Lord what you're doing to me
I've spent all my years in believing you
But I just can't get no relief Lord
Somebody (somebody) ooh somebody (somebody)
Can anybody find me somebody to love?

I work hard (he works hard) everyday of my life
I work till I ache my bones
At the end (at the end of the day)
I take home my hard earned pay all on my own
I get down (down) on my knees (knees)
And I start to pray (praise the Lord)
'Til the tears run down from my eyes
Lord somebody (somebody) ooh somebody (please)
Can anybody find me somebody to love?
(He wants help)

Every day (Every day) - I try and I try and I try -
But everybody wants to put me down
They say I'm goin' crazy
They say I got a lot of water in my brain
Got no common sense
I got nobody left to believe
Yeah - yeah yeah yeah
Ooh

Somebody (somebody)
Can anybody find me somebody to love?
(Anybody find me someone to love)
Got no feel I got no rhythm
I just keep losing my beat (you just keep losing and losing)
I'm Ok I'm alright (he's alright, he's alright yeah yeah)
I ain't gonna face no defeat
I just gotta get out of this prison cell
Some day I'm gonna be free Lord

Find me somebody to love find me somebody to love
Find me somebody to love find me somebody to love
Find me somebody to love find me somebody to love
Find me somebody to love find me somebody to love
Find me somebody to love find me somebody to love
Somebody somebody somebody somebody somebody
Find me somebody find me somebody to love
Can anybody find me somebody to love
Find me somebody to love
Find me somebody to love
Find me somebody to love
Find me find me find me
Find me somebody to love

Somebody to love
Find me somebody to love...

Saturday, December 24, 2016

Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016)

Em homenagem ao homem que melhor condensa pra mim o sentido do seguimento a Jesus Cristo hoje, reproduzo o conteúdo de uma conversa que tive com o então arcebispo emérito de S. Paulo, em 2004, em sua casa na Zona Norte de São Paulo. Tratamos de uma etapa específica de sua rica trajetória, no contexto da pauta daquela edição do caderno Mais!, que era sobre a formação dos seminaristas católicos  (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1104200404.htm).
Muito obrigado, Dom Paulo, por aquela conversa deliciosa, pela gentileza desde o gesto de me receber até o carinho de sair de casa e me acompanhar até o carro de minha mãe e cumprimentar-nos com tamanho afeto, ao final. Obrigado, sobretudo, por sua existência. De onde estiver agora, peço sua bênção luta após luta, de esperança em esperança, amado cardeal.





http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1104200410.htm

LEIA ABAIXO DEPOIMENTO DO ARCEBISPO EMÉRITO DE SÃO PAULO, DOM PAULO EVARISTO ARNS, SOBRE O PERÍODO VIVIDO EM UM SEMINÁRIO DURANTE OS ANOS 30

LIÇÕES DE SOLIDARIEDADE
Dom Paulo Evaristo Arns
Fiz o ginásio e o colégio no seminário (menor) de Rio Negro. Fui para lá partindo de Forquilinha, antigamente município de Criciúma, hoje uma cidade de 180 mil habitantes e que recentemente sofreu com o ciclone. Fui com 12 anos ao seminário. Classificavam todos os estudantes antes de serem admitidos no primeiro ano ginasial. Tive a sorte de logo entrar para o primeiro ano ginasial sem passar pelos dois anos de preparatório. Estudava antes na colônia com dois tios, tio Adolfo e tio Jacó, irmão e cunhado de meu pai, em regime escolar, com umas 40 crianças. Meus tios eram professores formados em Blumenau.
As matérias principais que se ensinavam no seminário eram português e latim. A partir da terceira série já ensinavam grego, latim, francês, alemão e as mais diversas matérias que formam a grade das escolas públicas, que não tinham tanto latim e tanto português quanto nós. O que me proporcionou alegria especial era a dedicação dos professores e o ensino muito bem ministrado só por padres, que na maioria eram alemães. Todos eles eram extremamente rigorosos tanto nas aulas da manhã, que começavam às 7h30 e terminavam às 12h, quanto no estudo, que se iniciava normalmente às 14h e, com alguma pausa para recreio, ia até as 18h30.
O estudo era sempre numa grande sala, vigiado por um padre ou um substituto dele. Cada qual tinha sua carteira e seus apetrechos escolares, e todos eram examinados pelos resultados que apresentavam no dia seguinte. Reunidos no mesmo espaço, bem amplo, bem arejado e num clima bem frio. Só trago lembranças favoráveis tanto do ensino como do relacionamento com os colegas e os professores.
Cada classe tinha o seu chamado "sênior", quer dizer, o mais antigo [encarregado de vigiar os demais alunos], que costumava ser aquele que tirasse as melhores notas no semestre. Nunca perguntamos a razão desse nome "sênior"; eu, por exemplo, fui logo no primeiro semestre escolhido sênior, mesmo sendo o mais novo de todos. Fui escolhido todos os anos, até terminar o colegial, porque sempre fui o primeiro da classe, por isso era o sênior automaticamente.
O que eu introduzi imediatamente como sênior foi [a prática de] nunca denunciar um aluno por causa de uma brincadeira qualquer ou de uma transgressão das pequenas regrinhas observadas por todo mundo. Por exemplo, conversar nas pausas de uma aula para outra ou preparar em conjunto as matérias que cada qual devia apresentar escritas de próprio punho, se ele a copiasse de outro. Há uma questão muito especial: logo no primeiro ano fundamos um jornal em que cada qual podia escrever os artigos que quisesse, e estes eram publicados. A partir do segundo ano o jornal se tornou semanário e recebeu o nome de "União": publicava os artigos sob pseudônimos, como Rui Barbosa, Nabuco, Machado de Assis e tantos outros.
O nosso professor de português naqueles dois anos era um gaúcho chamado frei Cipriano Chardon, que nos obrigava a escrever para cada aula um artigo de uma página sobre qualquer assunto, e as melhores produções literárias eram passadas para o "Livro de Ouro" e comentadas pelo professor, que as corrigia diariamente. Giravam em torno de qualquer coisa, por exemplo o lápis, a cadeira, qualquer animal, qualquer coisa, nós podíamos escolher o que quiséssemos. Foi fundamental para nos incentivar a escrever aquilo que observávamos sobre objetos, animais ou pessoas.
Essa técnica funcionou durante dois anos. Na quarta série recebemos um novo professor, que era carioca e fazia questão de realçar seu "privilégio" de carioca; ele nos ensinava literatura brasileira, mas também as técnicas da métrica em poesia, do estilo, nas mais diversas condições, e ele dirigia também o teatro para nos ensinar gestos, as tonalidades da voz e a capacidade de encarnar um personagem.
Fiz muitos teatros, qualquer festinha de seminário terminava com a arte ou, digamos, com ensaios literários. Eu representava em quase todos os teatros, por exemplo, em "O Gondoleiro da Morte" representei o próprio gondoleiro, portanto o bandido. Representamos [essa peça] até em Curitiba. Em geral eram teatros entendidos por todos os alunos, da primeira até a última série, não eram escolhidos pela linguagem seleta, mas sim por seu conteúdo e pela possibilidade de os alunos se aperfeiçoarem na arte da apresentação em público. Peças religiosas, profanas, de todos os tipos.
Festas havia a toda hora, e com todo brilho, tanto da missa, quanto do canto, quanto do coral, havia grandes professores músicos, compositores, tínhamos uma orquestra que era conhecida na cidade e que apresentava músicos de talento, sobretudo porque naquele tempo recebíamos reforços de alunos da Alemanha que vinham ser missionários franciscanos no Brasil, e alguns deles haviam feito curso completo de música e nos ajudavam a treinar os diversos instrumentos, como também a cantar as peças polifônicas mais variadas.
Não faltava nem a orquestra, que ensaiava todos os dias, nem a banda de música, que tocava nas festas do colégio e da cidade de Rio Negro e formava o gosto daqueles que tinham habilidade para o gênero musical. Eu cantava sempre.
Em termos de leitura, nossos mestres foram verdadeiros pedagogos. Eles nos passavam os livros conforme nossa idade e conforme nossa curiosidade e nos reservavam não só o tempo das férias para a leitura, mas também um tempo à noite, para lermos o que mais nos agradasse em diversas línguas. Romance era o que mais agradava. Descrições de viagens, aventuras, conquistas, história universal, da evolução do próprio Brasil, das questões brasileiras.
Essa experiência foi de 1934 até o fim de 1939; tenho só lembranças boas daquele tempo, sobretudo pela prática da solidariedade. Aprendi muito sobre são Francisco, sobre a vida missionária dos franciscanos, sobre o modo de trabalhar com o povo simples e de gostar de situações difíceis. Lá, porém, tínhamos pouquíssimo contato com o povo, só nos dias de festa, era muito pouco, não nos fazia praticamente falta naquele momento, mais tarde é que fomos refletir sobre esse assunto.
Em Petrópolis [1956-1966], depois de voltar da França [onde fez doutorado na Sorbonne], vim a ter muito contato [com a população carente], sete morros eram meus, onde ficavam favelas; subia três vezes por semana para verificar se o pessoal tinha saúde, escola, convivência pacífica e prática religiosa aprendida em casa ou trazida de Minas ou de outros Estados. Pudemos cuidar dos pobres e lembrar os tempos em que éramos criança e passávamos necessidade como gente pobre da colônia. Eram anos muito bonitos, a maior satisfação da vida, e, juntamente com o trabalho com os seminaristas [no Instituto Franciscano de Teologia de Petrópolis, naquele período], ensinando a minha matéria [a evolução do cristianismo e o pensamento dos Padres da Igreja], era uma realização pessoal como não podia haver outra.
Espero que a igreja no futuro se ocupe muito mais do relacionamento inter-religioso para termos um código mínimo de ética para todos os povos e uma possibilidade de paz autêntica, sem guerras internas e externas. A paz é o maior dom de Deus. Quando Cristo nasceu, os anjos cantavam paz aos homens de boa vontade. Quando ele se despediu do mundo, disse: "A paz esteja com vocês". Se é o desejo de Cristo, é o nosso desejo, e há de ser o desejo dos futuros padres.

Bob Dylan, "If Not For You"



O menino levantado



Jónsi e Alex, "Happiness"


Meryl Streep, "Drift Away"


Wednesday, December 21, 2016

Wednesday, November 02, 2016

a verdade saci


A verdade saci
A ideologia vive da fabricação de narrativas. Parece crescer na esquerda, um movimento de "narrativizar" a situação atual em dois passos: admitir derrotas no nível da governança - não assumem isso com qualquer laivo de culpa íntima, e sim com o dedo em riste para a direita que lhes roubou o picolé. Isso porque sabem do valor da raiva como combustível do segundo passo, a articulação do "contragolpe", através da chamada micropolítica, como se vê nas invasões de escola pelos grupelhos amestrados. uma exposição sofisticada dessa estratégia está na entrevista a seguir:

https://www.goethe.de/ins/br/pt/m/kul/fok/rul/20790860.html Nela, a autora de quebra mostra também como a psicanálise, rejeitada por muitos como uma via anacrônica e fracassada no âmbito das curas da alma, dá seu próprio "contragolpe" ao que vê como os golpistas da psiquiatria , da TCC, das terapias New Age. Esse contragolpe é forjar, ou recauchutar, um conceito suspeitíssimo de "inconsciente" como a verdade escondida que só eles podem acessar. Uma verdade saci, só anda com a esquerda, e monoglota, só fala esquerdês, é contra "o capital colonial".

Sunday, October 30, 2016

Saturday, October 29, 2016

O Cristo da humanidade




Observação - O Ator
*por Plínio Marcos

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para fazê-lo indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave no qual ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu em sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos nos quais não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e os autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator. 

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas, o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade, e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de seus personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica. 

(1986)

Thursday, October 27, 2016

Truman e a morte de Deus




Rever um dos filmes de nossa vida é como rever um grande amor do passado. Até pelos riscos de decepção. O filme não terá ganho rugas ou quilos, nem perdido fios de cabelo,nem mudado de caráter, mas ainda assim poderá ter desbotado. Não ter em nós a mesma força da surpresa, o mesmo encanto epifânico da primeira vez. Fiz o teste ontem, com um desses "filmes-ha!", "O Show de Truman", e ele continua jovial e sedutor.. 
Antes de mais nada, que são" filmes-ha"! ? São como as músicas-ha!, os lugares-ha!, as pessoas-ha! ou, pra voltar a formulação primeira deste misterioso "ha!", os "livros -ha!",conforme Vernon Proxton:
"Há bons livros, livros quaisquer e livros ruins. Entre os bons, há os que são honestos, inspiradores, emocionantes, proféticos, edificantes.
Os livros-ha! são aqueles que determinam, na consciência do leitor, uma mudança profunda. Eles dilatam a sua sensibilidade de tal maneira que ele se põe a olhar os objetos mais familiares como se os observasse pela primeira vez.
Os livros-ha! galvanizam. Atingem o centro nervoso do ser, e o leitor recebe um choque quase físico. Um arrepio de excitação percorre-o da cabeça aos pés".
Truman foi um desses "ha!", há quase vinte anos, quando o assisti pela primeira, e segunda, e terceira... vezes. Não por ser necessariamente melhor, mais sofisticado, mais "cult" que outros. Mas pelo poder de exprimir e tocar. Na sua simplicidade assombrosamente envolvente, o roteiro traz à tona, em pleno contexto atual de reality shows (que na época, 1998, nem estavam tão em voga). o drama essencial do homem, a saída da caverna das ilusões, tema que os grandes pensadores já formularam das mais diversas formas, com diferentes intenções e ideologias, da anamnese platônica à morte de Deus nietzschiana. E há "morte de Deus" em Truman. 
Parênteses: claro que "morte de Deus" é uma expressão autocontraditória, se tomada literalmente: difícil imaginar que um ser perfeito, totipotente e eterno pudesse passar pela privação da morte, a não ser por livre e espontânea vontade, ou em sua provisória encarnação no tempo-espaço das criaturas, como no caso do mito de Cristo. 
Mas Nietzsche, que os detratores adoram lembrar que morreu louco, como se isso fosse por si só, um veredicto (de Deus?) sobre suas teses, diz que o próprio Todo-Poderoso "morreu", e que fomos "nós", os modernos, que o matamos. O que indica que se trata de um determinado evento NA CONSCIÊNCIA dos homens, eles sim mortais. Sem entrar aqui no comentário detalhado da tese nietzschiana, que será objeto de meu artigo em gestação para o curso de Jorge Forbes, o que ressalto é a presença do tema na narrativa fílmica de Truman, herói que para fazer jus a seu nome, o "true man", homem verdadeiro, passa por toda sorte de provações no caminho do despertar iluminativo, desmascaramento do falso homem, do falso Self (Winnicott), filho indesejado, vendido desde o parto a uma grande rede de comunicações, devassado em sua intimidade, encostado na "segurança" (ele inclusive é um pacato funcionário de seguradora) que mata a liberdade, que torna a vida mais brocha que bruxa, que amor-tece de tecidos mortuários o desejo e o amor, que nos adormece no berço esplêndido de criaturas à imagem e semelhança do Pai amoroso, "Deus no comando", paraíso à vista. 
Talvez um true man tenha encontro marcado com um true god. Vai saber. Que eu venha a saber, Fazendo a travessia de Truman, que ainda não fiz, pobre de mim, espectador que -outra ironia que torna inesquecível este filme de Peter Weir, mesmo diretor de "Sociedade dos Poetas Mortos"- se revolve nas águas rasas da banheira de casa vibrando com a travessia marítima do herói-poeta que nele, em mim e em você pede pra ressurgir do ventre da baleia. Notei ontem, aliás, como  no filme, como na Bíblia, o  inumano Soberano dos ventos, das bestas e do mar decide, com humana compaixão, pôr um fim aos tormentos do frágil viajante, quando este deu prova de sua determinação de não mais recuar na execução, nos agora ampliados limites do possível, de sua missão mais elevada
.

Steve Jablonsky, "My Name is Lincoln"


Friday, August 26, 2016

Por que atrasar o aperfeiçoamento?

Qualquer momento é propício

-por São Teodoro Estudita, (759-826) monge de Constantinopla-

 Irmãos, há um tempo para semear e um tempo para recolher, um
tempo para a paz e um tempo para a guerra, um tempo para o trabalho e um tempo para o descanso (cf Qo 3). Para a salvação da alma, porém, todos os momentos são propícios e todos os dias são favoráveis, se assim quisermos. Estai, pois, sempre em movimento para o bem, fáceis de mover, cheios de frescor, passando das palavras aos atos. «Pois não são justos diante de Deus os que ouvem a lei», diz o apóstolo Paulo, «mas aqueles que observam a lei é que serão justificados» (Rom 2,13). Estamos no tempo da guerra espiritual? Devemos combater com ardor e atacar, com a ajuda de Deus, os pensamentos demoníacos que se elevam em nós; se, pelo contrário, estivermos no tempo da recolha espiritual, devemos recolher com ardor e ajuntar nos celeiros espirituais as provisões para a vida eterna.
Mas é sempre tempo de oração, tempo de lágrimas, tempo de reconciliação depois dos pecados, tempo de arrebatar o Reino dos Céus. Para quê
tardar então? Para quê adiar? Por que atrasamos de dia para dia o nosso aperfeiçoamento? «A aparência deste mundo passa» (1Cor 7,31); duraremos nós indefinidamente? O exemplo das virgens não nos assusta? «Aí vem o esposo; ide ao seu encontro», diz o Evangelho. E as virgens sensatas foram ao seu encontro com as lâmpadas acesas, e entraram no banquete das núpcias; enquanto as virgens néscias, atrasadas pela ausência de boas obras, gritavam: «Senhor, abre-nos a porta!» Mas ele respondeu: «Em verdade vos digo: Não vos conheço.» E acrescenta: «Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora.» Temos, pois, de velar e de despertar a alma para a sobriedade, a compunção, a santificação, a purificação, a iluminação, para evitar que a morte nos feche a porta, e que não haja ninguém que no-la abra e nos ajude.

Saturday, July 23, 2016

psicopatologia da linguagem cotidiana


Talvez pelo afrouxamento de sua índole moral e antigas matrizes metafísicas, a mentalidade ocidental é hoje de uma indolência, de um torpor, de uma inibição que a incapacitam a sequer nomear o Mal na gravidade que ele tem, que dirá combatê-lo com a energia necessária. Digo isso em referência a uma expressão sórdida como esta de "lobo solitário", que se popularizou na mídia para falar das nulidades humanas que descarregam sua miséria na forma de bombas, rodas de caminhão e balas a esmo contra seres humanos que esses outros seres deixaram de ser, se é que em algum momento foram. Mas lobos solitários é uma expressão quase tão criminosa quanto os atos desses monstros. É de um romantismo como o do repórter que declara, bestificado, como foi "ousado" o vagabundo que explodiu tal caixa eletrônico, incendiou aquele ônibus, matou não sei quantos policiais. Há 2.500 anos um discípulo perguntou a Confúcio: "Se um rei vos confiasse um território para governar segundo vossas próprias idéias, o que farieis primeiro?" A resposta de Confúcio foi: "Minha primeira tarefa certamente seria retificar os nomes." O discípulo se surpreendeu e pensou que Confúcio estivesse brincando. "Retificar os nomes? Tão pouca coisa? Que poderia isso significar?" Confúcio explicou: "Se os nomes não são corretos, se não correspondem a realidades, a linguagem não tem sentido. Se a linguagem não tem sentido, a ação torna-se impossível - e conseqüentemente todos os assuntos humanos se desintegram e torna-se impossível e inútil seu manejo. Portanto, a verdadeira e primeira tarefa de um estadista é retificar os nomes."

Thursday, July 21, 2016

desesconder a vida


Padre Léo tinha uma leitura intrigante da passagem bíblica que diz que nossa vida está escondida em Cristo. Sempre imaginei isso num sentido positivo, o do Santo recolhimento, intimidade do fiel com o seu Senhor, protegida do olhar e barulho vulgar do mundo, assim como a oração proferida no sigilo do meu quarto. O amado padre não, ele leva a coisa a outro patamar. Para ele a expressão indica que nosso eu melhor está, enquanto "escondido", num estado de potencialidade inconsciente, não consumada, estamos distantes da Vida enquanto ela está escondida -de nós- no Cristo que É a vida, o caminho, a verdade. Ontem, dia do Amigo, pratiquei uma espécie de mantra inspirado nesse amigo "virtual", além das distâncias de vida e morte, poder que muitos fãs de Léo veem nessa figura doce e comovente, legítimo santo como espero ver um dia a Igreja proclamar oficialmente. O mantra dizia, com um verbo inexistente, apenas indicativo de um estado que haverá de existir , também ele acima da linguagem habitual: "Senhor Jesus Cristo, 'desesconde' minha vida".

Tuesday, July 19, 2016

Resenhas para a Folha - "A Floresta Que Anda"


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/07/1792957-christiane-jatahy-empodera-publico-em-macbeth-revisitado.shtml

Thursday, July 14, 2016

"Vinde a mim"

Doroteu de Gaza (c. 500-?), monge na Palestina
«Instruções», I, 8
«Vinde a Mim»
Aquele que quer alcançar o verdadeiro descanso do espírito tem de aprender a ser humilde! Tem de perceber que na humildade se encontra toda a alegria, toda a glória e todo descanso, tal como na soberba se encontra tudo o que lhes é contrário. Com efeito, por que chegámos nós a viver todas as nossas tribulações? Por que caímos em toda esta miséria? Não teria sido por causa da nossa soberba e da nossa loucura? Não teria sido por termos seguido as nossas más inclinações e por nos termos apegado à nossa amarga vontade? Mas por que o fizemos? Não foi o homem criado na plenitude do bem-estar, da alegria, da paz e da glória? Não estava no paraíso? Foi-lhe ordenado: «Não faças isso», mas ele fez. Veem o orgulho, a arrogância, a insubmissão? «O homem é louco», diz Deus ao ver esta insolência, «não sabe ser feliz. Se não tiver de passar por dias difíceis, perder-se-á completamente. Se não perceber o que é estar numa aflição, nunca saberá o que é a paz.» Então Deus deu-lhe o que merecia, expulsando-o do Paraíso. [...]
No entanto, como refiro muitas vezes, a bondade de Deus não abandonou a sua criatura. Antes de novo se virou para ela e voltou a chamá-la: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.» Como que dizendo: «Estais fatigados, estais infelizes, experimentastes o mal causado pela vossa desobediência. Vamos, convertei-vos finalmente; vamos, reconhecei a vossa impotência e a vossa vergonha, para regressardes ao vosso repouso e à vossa glória. Vamos, vivei pela humildade, vós que estáveis mortos pelo orgulho.» «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.»

Wednesday, July 13, 2016

Resenha para a Folha - espetáculo 'Mamãe'



Resenha crítica sobre o espetáculo "Mamãe", para a Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, de 12 de julho de 2016

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/07/1790741-imperdivel-mamae-relata-o-tragico-sem-sentimentalismo.shtml

Tuesday, July 12, 2016

medo, amor e as freirinhas de Woodstock


Get Together
-The Youngbloods-

Love is but a song to sing
Fear's the way we die
You can make the mountains ring
Or make the angels cry
Though the bird is on the wing
And you may not know why
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now
Some may come and some may go
We shall surely pass
When the one that left us here
Returns for us at last
We are but a moment's sunlight
Fading in the grass
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now
If you hear the song I sing
You will understand (listen!)
You hold the key to love and fear
All in your trembling hand
Just one key unlocks them both
It's there at you command
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now
Come on people now
Smile on your brother
Everybody get together
Try to love one another
Right now


Grateful Dead, "Ripple"

"Ripple"

If my words did glow with the gold of sunshine
And my tunes were played on the harp unstrung,
Would you hear my voice come through the music?
Would you hold it near as it were your own?

It's a hand-me-down, the thoughts are broken,
Perhaps they're better left unsung.
I don't know, don't really care
Let there be songs to fill the air.

Ripple in still water,
When there is no pebble tossed,
Nor wind to blow.

Reach out your hand if your cup be empty,
If your cup is full may it be again,
Let it be known there is a fountain,
That was not made by the hands of men.

There is a road, no simple highway,
Between the dawn and the dark of night,
And if you go no one may follow,
That path is for your steps alone.

Ripple in still water,
When there is no pebble tossed,
Nor wind to blow.

You, who choose to lead, must follow
But if you fall you fall alone.
If you should stand then who's to guide you?
If I knew the way I would take you home.

La dee da da da,
La da da da da,
Da da da, da da, da da da da da
La da da da,
La da da, da da,
La da da da,

La da, da da.

Ondulação

Se minhas palavras brilharam com o dourado do sol
E minhas canções foram tocadas na harpa sem cordas
Você ouviria minha voz vindo através da música?
Você a seguraria perto como se fosse sua?

É de segunda-mão, os pensamentos estão partidos
Talvez eles estejam melhores não cantados
Eu não sei, não me importo muito
Deixe existirem canções para preencher o ar

Onda em águas calmas
Quando não há pedra arremessada
Nem vento para soprar

Estique sua mão se seu copo estiver vazio
Se seu copo estiver cheio talvez fique de novo
Deixe saber que há uma fonte
Que não foi feita pelas mãos de homens

Há uma estrada, não uma simples alto-estrada
Entre o amanhecer e a escuridão da noite
E se você for ninguém poderá seguir
O caminho é somente para seus passos

Onda em águas calmas
Quando não há pedra arremessada
Nem vento pra soprar.

Você que decidiu guiar deve seguir
Mas se você cair, você cai sozinho
Se você deve levantar, então quem vai guiar você
Se eu soubesse o caminho eu te levaria para casa.

La da da da La da da da da
La da da La da La da da da
La da da da La da da da da
La da da da La da da da da