sexta-feira, janeiro 29, 2016

amar a si mesmo como ao efetivamente próximo


Se o existencialismo de Sartre é, por vontade própria, um humanismo, o objetivismo de Ayn muitas vezes é rotulado como um egoísmo. Ela mesma não renega o rótulo, cuidando apenas de livrá-lo da pecha imposta pela hipocrisia moral dominante. Embora não reconheça esse débito, Ayn é profundamente "nietzschiana" nas tinturas românticas com que desenha seu ideal de homem, diria mesmo, de Super-homem. De Nietzsche ela gostava de citar o aforismo de Além do Bem e do Mal: a alma nobre tem reverência por si mesma.  Nesse sentido o egoísmo que ela professa é uma questão de ênfase em relação ao imperativo bíblico,  AMAR A SI MESMO como ama o próximo, redefinindo porém como "próximo" não qualquer um,  menos ainda "o povo", fetiche dos tiranos. Mas a Humanidade genial, latente a todos, enteléquia ética, afetiva e intelectual universal mas deformada na maioria de nós, largada pelo caminho, em troca dessa ou aquela vantagem material, adequação ao rebanho, canalhice mais ou menos precoce, instante de decisão de se reduzir a um verme, de escolher se lambuzar do prato podre da balança dos nossos potenciais, ponto de viragem da corrupção pessoal e coletiva.
Ateia como Nietzsche, ela valoriza como  "próxima" toda alma que comunga do conjunto de qualidades elementares à saúde espiritual, como autorrespeito, independência, criatividade, racionalidade, coragem.  Isso implica um egoísmo que está longe de ser fortaleza de espelhos asfixiante, é um amor narcisista mas includente. Considerem apenas a intensidade de seu amor pelo marido, que se traduzia em gestos concretos de suporte financeiro, quando necessário. Não por caritatismo, mas porque LHE fazia bem ver seu amor bem, e assim retribuir o tanto que também recebeu dele em momentos críticos da vida. O que ela relata, no depoimento a seguir, é de uma importância vital para quem como eu passa por muitas dessas noites trevosas de nojo e náusea, solidão e desesperança assim na terra como no céu, nas minhas forças humanas e nas energias arquetípicas, que parecem todas distantes, derretidas, empesteadas pela desgraça. Nesses momentos o reencontro do amor de si é vital, melhor ainda se contar com o "próximo" que vem ao socorro, não com esmolas, mas com o interesse DELE em um mundo do qual faça parte você forte.
"Não me senti desencorajada com frequência e, quando isso aconteceu, não durou mais que uma noite. Mas houve uma noite, enquanto eu escrevia este livro, em que SENTI UMA INDIGNAÇÃO TÃO PROFUNDA COM O ESTADO DAS 'COISAS COMO SÃO' que parecia que eu jamais recuperaria a ENERGIA PARA DAR UM ÚNICO PASSO NA DIREÇÃO DAS 'COISAS COMO DEVERIAM SER'. Frank [O' Connor, seu marido] conversou comigo por horas naquela noite. Ele me convenceu de que NÃO PODEMOS ABANDONAR O MUNDO PARA AQUELES QUE DESPREZAMOS. Quando terminou, MEU DESÂNIMO HAVIA SUMIDO E NUNCA MAIS RETORNOU DE FORMA TÃO INTENSA".
Ayn Rand,
Introdução (NY, maio de 68) à reedição de A NASCENTE