segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie, o astronauta


O clássico mais lembrado hoje pelos fãs de Bowie parece mesmo ser  "Space Oddity". Não consigo dissociar essa música de um filme recente, pop e profundo, como esse cantor, e como a cultura anglo-americana que tantos fingem detestar, "A Vida Secreta de Walter Mitty". A música ali é primeiro um recurso de bullying do antagonista de Mitty, pra ridicularizar o hábito sonhador, a cabeça no mundo da lua. No processo de metanoia (transformação) do herói, porém, a música será "apropriada" graças à musa inspiradora (arquétipo da mulher no coração do homem, a guia e farol da saída dos infernos, como Beatriz para Dante). Ela ensina Mitty a auto-estima não como coisa dada e complacente, mas meta de procura. E a música, como na cena que vou linkar aqui, transparece como símbolo da pérola preciosa que aguardava no fundo do mar, ou no topo da colina da estrela mais distante, pela coragem do aventureiro da vida em encarar os perigos, como o piloto tosco e bebum do helicóptero: https://vimeo.com/85156527
Concluo que, pop e profundo, um artista de nosso tempo nos toca quando toca em nós a corda, o "acorde" que nos acorda para o sonho, "aquele tempo" (como diria Eliade), aquele Quando, aquele Onde, impreciso, universal, o não tempo, o atemporal, e aespacial em que os deuses, anjos e heróis nos habitam e ensinam a coragem de imaginar, não como anestesia, mas acicate. Vide as metáforas siderais, ou mesmo "alienígenas",, que hoje se espalham em homenagem a Bowie. Ou a exaltação de suas múltiplas facetas, de seu poder de metamorfose, signo também de liberdade, de não aprisionamento às coerções sociais e, mais metafisicamente, a toda forma fixada do aqui e agora. Para astronautas e argonautas do inconsciente coletivo, sejam eles os psicólogos e antropólogos,propriamente ditos, os buscadores existenciais ou tudo isso junto e misturado, nos faz ver em Bowie, em Mitty, no mito, dedos que apontam a lua, não a lua, como no budismo. Ou, mais perto de nossa tradição: inquieto é o nosso coração quando não repousa em Ti (Santo Agostinho)