Thursday, January 07, 2016

de Machado a Carolina


À procura de motivações para não desesperar por completo do ter nascido nesse país onde não se sabe o que é mais sombrio, violento e inescrupuloso, as origens ou os horizontes, eis que me vem em socorro a inteligência de uma dupla de compatriotas que honram a raça: Daniel Piza e um de seus últimos legados antes da morte precoce e absurda, a biografia Um Gênio Brasileiro, dedicada a Machado de Assis. 
Assim como noutras ocasiões, vou destacar alguns trechos conforme a leitura do livro for caminhando -e caminhará a passos lentos, suponho, porque vou aproveitar pra sincronizar a biografia com livros do mestre que indesculpavelmente ainda não tinha lido, como o Memorial de Aires. 
Piza começa justamente do período deste romance que já percebo delicioso e profundo, do fim da vida de Machado, marcado pela vitória avassaladora da melancolia sobre a galhofa, parafraseando Brás Cubas. 
Um quadro de ruína da saúde do corpo e de profundo desânimo existencial após a morte da amada Carolina. Veremos já que lindo o poema que dedicou à esposa por ocasião da despedida. Os versos falam da felicidade que soube se impor sobre as não poucas adversidades do casal (toda a humana lida), sobre o temenos sagrado (o casarão cuja localidade lhe valeu a alcunha por Drummond de o "bruxo do Cosme Velho") mas também da sensação de Machado de ter morrido junto, quando Carolina se foi. 
Uma sensação de morte que também associava às brutais transformações urbanísticas do seu Rio de Janeiro, por conta dos ímpetos reformistas que literalmente botavam no chão, sem critério nem respeito, um aspecto sutil e precioso do Brasil também soterrado pela  farsa republicana que maculava o legado de Dom Pedro II, a quem "o gênio brasileiro", maior de nossos escritores, dedicou versos comoventes, como estes a sua Carolina:


Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.


Machado de Assis, 1906