Wednesday, January 20, 2016

"Florbela"


Bendita uma madrugada como a passada, em que pude estar mais próximo do universo poético de Florbela Espanca.  Isso apesar de "Florbela", de Vicente Alves do Ó, enfatizar um período de entressafra, e na verdade já de fenecimento da produção de Florbela, cada vez mais devorada pela tristeza que viria a matá-la (ainda se discute se foi ou não suicídio) três anos após a morte do irmão, em acidente (?) do avião que ele pilotava sozinho. 
O filme sugere uma intensidade incestuosa de amor entre Florbela e Apeles. Sua impossibilidade em descer das esferas platônicas à matéria pode ter colaborado no ímpeto dele de subir aos céus e também de se deixar tragar, em queda, pelas águas do Tejo. Pouco depois da tragédia, Florbela se atirou dentro de um poço na propriedade do pai. 
Não morreu ali; em verdade sentiu reviver, ainda que num  breve sopro, e num pedido imaginário do irmão morto, a inspiração para escrever, que vinha bloqueada há tempos pela melancolia. O radical anseio de amor se chocava com as frustrações conjugais, os abortos, a impossibilidade de se acomodar à posição de esposa e dona de casa, a falta de interlocução à sua altura e profundeza. 
Nem por isso "Florbela", o filme, deixa de ser profundamente revelador acerca de Florbela, não só a mulher como a poetisa. Para os neófitos em seus versos, uma excelente introdução às raízes psíquicas pessoais de uma das obras poéticas mais densas de nossa língua. Obra tão lusitana em sua tristeza, na sua perplexidade, na sua estranheza e "atraso" num mundo moderno em que o amor se perde no vapor das máquinas humanas de materialismo, pequenez e superficialidade. 
"Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus
(...)
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p' la morte!"
(As Quadras d' Ele, III)