Thursday, January 21, 2016

os super-homens também amam


O que escutei de mais desfavorável ao filme "Steve Jobs" é o fato de Michael Fassbender não se parecer muito com o Jobs real, ou se parecer menos -fisicamente falando- do que fulano ou beltrano. Como se se tratasse não de obra de arte, mas de concurso de cover. Mas a queixa não deixa de ser reveladora do quanto os traços físicos de Jobs, do menino prodígio ao sábio do discurso de Stanford, perto da morte por câncer em 2011, entram na equação simbólica que torna este personagem tão incontornável para o imaginário coletivo de nossa era, da qual ele, com Bill Gates, é um dos grandes construtores, como mago dos computadores pessoais.
O fato é que se trata de um filme insanely great, diria Jobs, espetacular "de ponta a ponta", para brincar com o jargão controlador que o protagonista projeta sobre os seus produtos: fechados "de ponta a ponta", incompatíveis com a maior parte dos sistemas... como o próprio Jobs.
Em relação ao filme "Jobs", estrelado por Ashton Kutcher -que mandou bem também e é, vá lá, "mais parecido"-, "Steve Jobs" é menos condescendente com a faceta sombria deste que é, repito, um dos homens mais interessantes de nosso tempo (não por acaso esse frisson de Hollywood por ele, com dois longas e outro documentàrio de grande porte nesses poucos anos apòs sua morte). 

A arrogância, a implicância, a megalomania, o "campo de distorção da realidade" (capacidade frenética de reinterpretar ou mesmo adulterar os fatos conforme seu interesse) a aridez de sentimentos são evidentes, nos diálogos de Jobs com a funcionária polaca, sua imago materna (Kate Winslet, magistral no papel), e com os demais personagens que o circundam, em conflitos que ele não fazia questão nenhuma de abafar de quem passasse perto,  nos bastidores dos três grandes lançamentos que pontuam a evolução da trama: o Macintosh, em 1984, o Black Cube, em 1988, pela Next, e o iMac, em 1998, já de volta à Apple, da qual fora expulso em 1985. 
John Sculley, o artífice da sua dramática saída da empresa da qual foi cofundador, na mítica garagem de sua casa , qual uma banda de rock, com o gênio da eletrônica Steve Wozniak (o Ringo que queria ser John, mas sem carisma para tanto), aparece de um modo mais matizado, mais complexo, do que simplesmente no papel de inescrupuloso traidor. Tem sim traços de vilania, mas temperados, na excelente composição do personagem, por outros aspectos. Exerce em Jobs uma virtuosa ascendência paterna, não apresenta traços de ressentimento após cair em desgraça e, quanto ao episódio da expulsão de Jobs, parece sair até com mais razão do que o jovem brilhante mas turrão que parecia pôr a vaidade pessoal acima das ponderações racionais e dos interesses da empresa. 
As biografias tendem a mostrar o retorno à Apple como um ponto de inflexão que, além de salvá-la da falência, trouxe à tona um Jobs mais compreensivo, sábio, humano. O filme evita "hagiografar" também esta interpretação, embora, sim, retrate uma evolução do tipo no relacionamento de Jobs com a filha Lisa. Um relacionamento cuja complexidade só mesmo um gênio como Fassbender poderia captar com tamanha força na riqueza contraditória dos traços de seu rosto e de sua alma -no SEU Jobs, não cover, mas obra de arte- de filho adotivo, que se sente por isso um eleito, mas também um rejeitado e que também rejeita, não sem também "eleger" a filhinha, encantadora nas três idades retratadas (5, 9 e 19 anos). Recusa publicamente assumir-se pai, mas dá o nome de Lisa a um de seus primeiros e fundamentais  computadores. Traduz na linguagem fria das máquinas a intensidade calorosa de uma afeto que tinha muita dificuldade de externalizar, preso que sempre foi ao papel de "super-homem". Não à toa ele parafrasear  Assim Falou Zaratustra, ao dizer que o problema são as pessoas, as pessoas são de uma natureza a ser superada.
Os super-homens também amam! Cenas tocantes, como aquela embalada pela linda música "Grew up at Midnight" mostram isso, sem quebrar o tom anti-laudatório da narrativa.