Saturday, July 23, 2016

psicopatologia da linguagem cotidiana


Talvez pelo afrouxamento de sua índole moral e antigas matrizes metafísicas, a mentalidade ocidental é hoje de uma indolência, de um torpor, de uma inibição que a incapacitam a sequer nomear o Mal na gravidade que ele tem, que dirá combatê-lo com a energia necessária. Digo isso em referência a uma expressão sórdida como esta de "lobo solitário", que se popularizou na mídia para falar das nulidades humanas que descarregam sua miséria na forma de bombas, rodas de caminhão e balas a esmo contra seres humanos que esses outros seres deixaram de ser, se é que em algum momento foram. Mas lobos solitários é uma expressão quase tão criminosa quanto os atos desses monstros. É de um romantismo como o do repórter que declara, bestificado, como foi "ousado" o vagabundo que explodiu tal caixa eletrônico, incendiou aquele ônibus, matou não sei quantos policiais. Há 2.500 anos um discípulo perguntou a Confúcio: "Se um rei vos confiasse um território para governar segundo vossas próprias idéias, o que farieis primeiro?" A resposta de Confúcio foi: "Minha primeira tarefa certamente seria retificar os nomes." O discípulo se surpreendeu e pensou que Confúcio estivesse brincando. "Retificar os nomes? Tão pouca coisa? Que poderia isso significar?" Confúcio explicou: "Se os nomes não são corretos, se não correspondem a realidades, a linguagem não tem sentido. Se a linguagem não tem sentido, a ação torna-se impossível - e conseqüentemente todos os assuntos humanos se desintegram e torna-se impossível e inútil seu manejo. Portanto, a verdadeira e primeira tarefa de um estadista é retificar os nomes."