Thursday, October 27, 2016

Truman e a morte de Deus




Rever um dos filmes de nossa vida é como rever um grande amor do passado. Até pelos riscos de decepção. O filme não terá ganho rugas ou quilos, nem perdido fios de cabelo,nem mudado de caráter, mas ainda assim poderá ter desbotado. Não ter em nós a mesma força da surpresa, o mesmo encanto epifânico da primeira vez. Fiz o teste ontem, com um desses "filmes-ha!", "O Show de Truman", e ele continua jovial e sedutor.. 
Antes de mais nada, que são" filmes-ha"! ? São como as músicas-ha!, os lugares-ha!, as pessoas-ha! ou, pra voltar a formulação primeira deste misterioso "ha!", os "livros -ha!",conforme Vernon Proxton:
"Há bons livros, livros quaisquer e livros ruins. Entre os bons, há os que são honestos, inspiradores, emocionantes, proféticos, edificantes.
Os livros-ha! são aqueles que determinam, na consciência do leitor, uma mudança profunda. Eles dilatam a sua sensibilidade de tal maneira que ele se põe a olhar os objetos mais familiares como se os observasse pela primeira vez.
Os livros-ha! galvanizam. Atingem o centro nervoso do ser, e o leitor recebe um choque quase físico. Um arrepio de excitação percorre-o da cabeça aos pés".
Truman foi um desses "ha!", há quase vinte anos, quando o assisti pela primeira, e segunda, e terceira... vezes. Não por ser necessariamente melhor, mais sofisticado, mais "cult" que outros. Mas pelo poder de exprimir e tocar. Na sua simplicidade assombrosamente envolvente, o roteiro traz à tona, em pleno contexto atual de reality shows (que na época, 1998, nem estavam tão em voga). o drama essencial do homem, a saída da caverna das ilusões, tema que os grandes pensadores já formularam das mais diversas formas, com diferentes intenções e ideologias, da anamnese platônica à morte de Deus nietzschiana. E há "morte de Deus" em Truman. 
Parênteses: claro que "morte de Deus" é uma expressão autocontraditória, se tomada literalmente: difícil imaginar que um ser perfeito, totipotente e eterno pudesse passar pela privação da morte, a não ser por livre e espontânea vontade, ou em sua provisória encarnação no tempo-espaço das criaturas, como no caso do mito de Cristo. 
Mas Nietzsche, que os detratores adoram lembrar que morreu louco, como se isso fosse por si só, um veredicto (de Deus?) sobre suas teses, diz que o próprio Todo-Poderoso "morreu", e que fomos "nós", os modernos, que o matamos. O que indica que se trata de um determinado evento NA CONSCIÊNCIA dos homens, eles sim mortais. Sem entrar aqui no comentário detalhado da tese nietzschiana, que será objeto de meu artigo em gestação para o curso de Jorge Forbes, o que ressalto é a presença do tema na narrativa fílmica de Truman, herói que para fazer jus a seu nome, o "true man", homem verdadeiro, passa por toda sorte de provações no caminho do despertar iluminativo, desmascaramento do falso homem, do falso Self (Winnicott), filho indesejado, vendido desde o parto a uma grande rede de comunicações, devassado em sua intimidade, encostado na "segurança" (ele inclusive é um pacato funcionário de seguradora) que mata a liberdade, que torna a vida mais brocha que bruxa, que amor-tece de tecidos mortuários o desejo e o amor, que nos adormece no berço esplêndido de criaturas à imagem e semelhança do Pai amoroso, "Deus no comando", paraíso à vista. 
Talvez um true man tenha encontro marcado com um true god. Vai saber. Que eu venha a saber, Fazendo a travessia de Truman, que ainda não fiz, pobre de mim, espectador que -outra ironia que torna inesquecível este filme de Peter Weir, mesmo diretor de "Sociedade dos Poetas Mortos"- se revolve nas águas rasas da banheira de casa vibrando com a travessia marítima do herói-poeta que nele, em mim e em você pede pra ressurgir do ventre da baleia. Notei ontem, aliás, como  no filme, como na Bíblia, o  inumano Soberano dos ventos, das bestas e do mar decide, com humana compaixão, pôr um fim aos tormentos do frágil viajante, quando este deu prova de sua determinação de não mais recuar na execução, nos agora ampliados limites do possível, de sua missão mais elevada
.