segunda-feira, dezembro 25, 2017

o degustador de arrotos



Natal e Ano Novo são para mim ritos arcaicos de repactuação de nossa relação com o mundo e com a vida. Experiências essenciais do que Mircea Eliade chama de o eterno retorno. Rememorar, em inglês, é re-member, algo não sem relação com o reagrupamento dos membros de um corpo, recomposição de um todo. Por isso o crente, mesmo quando fora do contexto eclesiástico formal, não apenas rememora um nascimento obscuro havido há mais de dois milênios. Ele tenta revê-lo e revivê-lo no seu aqui e agora, com parentes, amigos e no seu coração-manjedoura. Fazendo da vinda do Salvador em forma de menino um evento que volta a acontecer, que é agora. Repactuando a fidelidade ao Eterno e à história efêmera que Ele nos deu construir, história que seria insuportável e caótica sem a bússola do Espírito que fala no silêncio e demais formas do sutil. Semana que vem, seremos todos compelidos a acreditar que algo de substancialmente novo pode acontecer, recomeçar, por trás e para além de uma trivial mudança do calendário. Repactuamos, então, não só com o Eterno, mas com sua imagem móvel no tempo "novo" que cremos se abrir para nós.
Anunciar a deus e o mundo sua "alegria" com eventos de vida interior e familiar como o Natal com fogos de artifício intermináveis é retardado como descrever uma degustação de vinho com arrotos. Fazer o máximo de barulho externo para compensar o proporcional grau de embrutecimento da capacidade simbólica, de atrofia da capacidade de se conter, ou melhor, se focar, na afetividade viva da relação com quem está ao nosso lado e dentro de nós.

Queen & George Michael, "Somebody to love"


quinta-feira, dezembro 21, 2017

"Proserpina", do filme "Trash Fire"


Proserpina, Proserpina, come home to momma, come home to momma
Proserpina, Proserpina, come home to mother, come home to momma now
I shall punish the Earth, I shall turn down the heat
I shall take away every morsel to eat
I shall turn every feeling to stone
Where I walk crying alone
Crying for

Proserpina, Proserpina, come home to momma, come home to momma now
Proserpina, Proserpina go home to your mother, go home to Hera
Proserpina, Proserpina go home to your mother, go home to Hera now
She has ṗunished the Earth, she has turn down the heat
She has taken away every morsel stone
Where she walks cry-crying alone
Crying for
Proserpina, Proserpina, come home to momma, come home to momma
Proserpina, Proserpina, come home to momma, come home to momma now
She has turned every feeling to stone
Where she walks cry-crying alone
Proserpina, Ṗroserpina, come home to momma, come home to momma
Proserpina, Proserpina, come home to momma, come home to momma now

quinta-feira, novembro 30, 2017

o sorriso interior


SORRISO INTERIOR
-Cruz e Sousa-

O ser que é ser e jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto.
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem mágoas e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio*.

O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio.

*eflúvio: perfume, aroma, emanação de energia

segunda-feira, novembro 27, 2017

o Nirvana de Bukowski





Era uma vez um jovem "sem grandes chances e completamente desprovido de propósitos" , em viagem de ônibus pela Carolina do Norte, rumo a "algum lugar" -ou, por uma ligeira mudança na ordem dos fatores, rumo a lugar algum. Em meio à nevasca, o ônibus para num café nas montanhas. Assim como os outros (poucos) passageiros, ele entra e se acomoda. Faz o pedido, e a refeição que chega estava particularmente boa. Assim como o café. E o surpreendente fluxo de bem-estar só se amplia quando sua atenção se volta à garçonete que o atendera: uma mulher diferente de todas as que ele já conhecera. Não sabemos se  a beleza física ou atratividade sexual estava em questão, o que o encanta, ao menos é o que nos diz, é a simplicidade, a autenticidade - ausência de "afetação"- e o "humor natural" que emanavam da moça. A frigideira falava, a pia gargalhava: a lógica não mais imperava. Contemplar a moça contemplando a neve na janela foi o auge de uma experiência que o jovem desejava que nunca mais acabasse. Era tudo maravilhoso, e igualmente maravilhoso seria permanecer ali para sempre. Mas o pra sempre sempre acaba, é decreto desta lógica que sempre dá o troco nas nossas felicidades insensatas. O motorista avisou que era hora de retomar a viagem. O jovem a princípio quis resistir. Pensou de si para si:"Vou apenas ficar aqui. Vou apenas ficar aqui". Mas então se levantou e seguiu os outros até o ônibus,.Constatou, pelos gestos e conversas dos outros, que ninguém havia percebido a mágica que acontecera no café que agora ele observava ficando para trás da janela embaçada pela neve. Ele se resignou a inclinar a cabeça sobre o vidro e fingiu dormir. Não havia nada mais a fazer. 
Essa iluminação, imagem mística reforçada pelo título do poema  de Bukowski, "Nirvana", também poderia ser considerada um maravilhoso testemunho do que estamos chamando, com Maslow e Colin Wilson de as "peak experiences". 
Epifanias de que abundam os testemunhos literários e místicos ao longo da história, e que podem nos surpreender até mesmo num simples café da manhã em que, subitamente, nos damos conta da maravilha que é aquele instante, aquela criança, aquele cachorro, aquela  mulher junto de nós. Um sopro da graça, a "boa nova absurda" (Chesterton) que recobre a vida, a despeito de tudo que possa ter de maçante e maligno, de uma aura de bênção, de perfeição, de plenitude tão ilógica quanto uma pia se por a gargalhar. 
Yeats nos dá da peak experience um exemplo similar, até pela ambiência, ao do jovem do poema de Bukowski:
"Meu quinquagésimo ano veio e se foi.
Eu, um homem solitário,
Sento-me em um bar lotado em Londres.
Um livro aberto e um copo vazio no tampo da mesa de mármore.
Enquanto olhava para o bar e para a rua.
Meu corpo subitamente ardeu em chamas,
e durante mais ou menos 20 minutos,
a minha alegria foi tão grande que parecia
que fui abençoado e podia abençoar".
Um problema com as euforias passageiras é serem, infelizmente, tão passageiras, mesmo quando as desfrutamos sem o auxílio de expedientes duvidosos e arriscados, como drogas pesadas ou sexo promíscuo.  A volta para a viagem solitária em nosso ônibus de janelas embaçadas, isto é, para a vida comezinha, tende a ser especialmente doloroso, como para a pessoa cuja cegueira não é de nascença, e sim um golpe, e uma derrota, e uma perda inestimável, em algum trecho do caminho. Essa dinâmica, segundo Wilson, explica a razão de tantos fins de vida desastrosos de poetas e pintores românticos, justamente eles que tinham tamanha sensibilidade para o que o mundo podia oferecer de excepcional, para trás das cortinas de um cotidiano amaldiçoado pelo tédio e pelo absurdo.

domingo, novembro 26, 2017

da eternidade e dos figos


Pensar na minha buldoguinha octogenária (seus quase 12 anos caninos equivaleriam a algo assim na escala humana)é sempre um gatilho de sentimentos múltiplos. Alegria pela sua presença, tristeza pela perspectiva de sua ausência. Ambas as coisas, alegria e tristeza, como verso e reverso de uma mesma moeda áurea, a do amor. Afora idealizações religiosas, o "amor eterno" é uma expressão irônica em se tratando de seres não-eternos como nós. Nada é eterno, senão enquanto dura, diria um sábio. O que poderá persistir após o momento de uma separação é uma lembrança afetuosa e lancinante, uma nostalgia pungente aguçada pelos ícones da ausência do ente amado. No nosso caso, seus itinerários habituais entre os móveis de casa, a chaise em permanente disputa entre mim e ela, por exemplo, ou os passeios, as conversas, os carinhos. Fotografias, claro, e é estranho como elas sempre me trazem certa tristeza, independentemente de retratarem ou não pessoas ou situações já pulverizadas pelo tempo. Aliás, toda fotografia tem algo de mortuário, é o flagrante de um instante que jamais se repetirá.
Em luta contra a depressividade que me é natural, evoco a altivez filosófica que apregoa que a perspectiva da morte de quem ou do que mais amamos - bicho, gente ou situação no mundo-, não deveria nos afundar na tristeza antecipada, mas soar como amoroso alerta pra aproveitarmos ao máximo cada instante e nos prepararmos para a melhor resistência possível, a partir de já, ao baque da perda quando vier. 
A consciência da morte pode se transformar numa das melhores técnicas de honrar a vida. De desfrutar com cores mais intensas, assim destacadas da miopia embaçada do tédio, o milagre do instante que passa. Disse Epicteto, expoente de uma doutrina, o estoicismo , que sempre enfatizou que a felicidade depende de aceitarmos e pensarmos com coragem o lado escuro da vida: "Sempre que você se afeiçoar a alguma coisa, não aja como se fosse uma dessas coisas que não podem lhe tomar, mas pense nela como um jarro ou uma bola de cristal (...). Se você beijar seu filho, seu irmão, seu amigo (...) lembre-se de que você ama um mortal, algo que não lhe pertence, que lhe foi dado no momento presente, nem inseparavelmente nem para sempre, mas como um figo, ou um cacho de uvas, numa determinada estação do ano".

quarta-feira, novembro 22, 2017

o menino, a estátua e o céu


A cena de "Amélie Poulain" evocada na foto acima é interessante em mais de um sentido. Primeiro, por mostrar um menino que simboliza uma espécie de arauto, um mensageiro, portador, como nos contos de fada, de uma advertência decisiva para a "metanoia" (conversão, mudança de atitude, saída da zona do equívoco) do herói: era preciso ao par romântico de Amélie  olhar diretamente para o "céu", ou seja, para a realidade, para a amplidão da vida, do devir, deixando um pouco de lado a malha de signos e de fantasias que, se não inspiram o movimento eficaz, acabam por ser agentes de paralisação (o dedo apontado para o céu ser o de uma estátuaq). Esse é um dilema que está no âmago do filme como um todo, vide uma de suas frases mais "memetizadas" na internet, algo como "este não é um tempo favorável para sonhadores". 
Tal sentença é obviamente crítica a nossa cultura pragmática, imediatista, interesseira, pouco idealista. Mas o filme não se limita a um quixotismo ingênuo, mostrando o quanto, entre as formas como podemos exercer o "direito inalienável de estragar nossa vida", uma das piores e mais comuns é trocar a vida pela quimera. O céu pelo dedo que aponta para ele. 
É evidente a analogia com o alerta de Buda para seus discípulos, de que o dedo que aponta para a Lua não pode ser confundido com a Lua: as doutrinas, os símbolos, as palavras, as crenças, nada substitui a experiência direta. Entre nós, um haikai (forma poética típica dos mestres zen-budistas) de Millôr captou bem esse impasse:
Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua

segunda-feira, novembro 20, 2017

um descuido do não


Sei lá, a vida tem sempre razão
-Vinícius e Toquinho-
Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.

Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.
A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.
De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é um descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

quarta-feira, novembro 15, 2017

terça-feira, novembro 14, 2017

a psicologia do possível heptacampeonato


Mais de 30.000 pessoas no treino histórico do Timão, na véspera do clássico com o Palmeiras

O Corinthians está a uma vitória de levantar seu sétimo caneco de campeão brasileiro. Faltam quatro rodadas, e com mais três pontos, ele não poderá mais ser alcançado por ninguém. Aparentemente, um desfecho tranquilo (aparentemente porque nada para nós é tranquilo), e que até surpreende. O mês de outubro do time foi péssimo, com várias derrotas e empates, sedimentando a impressão de que a invicta e histórica campanha do primeiro turno seria arruinada no segundo. E pior, a impressão era de que justamente o Palmeiras, nosso arquirrival, depois de estar 300 pontos atrás, seria o cavalinho do Fantástico a nos tomar a dianteira. Essa suprema humilhação foi projetada, não sem toques de psicologia reversa, por dois corintianos célebres, Casagrande, na Globo, e Neto, em inesquecível desabafo no seu programa na Band:

O fato é que esse apocalipse foi evitado quando o Timão derrotou o Porco, desanimando-o e aos outros concorrentes diretos, por sinalizar que não estava a fim de participar desse roteiro de fracasso trágico. Especialmente importante foi a presença em massa do torcedor no treino da véspera do clássico: mais de 30.000 fiéis passando energia positiva, abraçando o time, sabidamente limitado, e ajudando os jogadores a focarem-se no amor, e não no terror, como diz aquele slogan de épocas de cobrança desesperada a times em crise ("ou vai no amor ou vai no terror").


O ano foi muito louco, até para os padrões normalmente manicomiais deste time. Em janeiro éramos considerados a "quarta força" entre os paulistas (atrás do milionário Palmeiras, do São Paulo e do Santos). O prognóstico mais favorável para um campeonato duro como o brasileiro era, no máximo, chegar lá por décimo, décimo segundo na classificação. Não ser rebaixado seria lucro. Mas fomos campeões paulistas e arrancamos para um Brasileirão formidável, no primeiro turno.
Havia qualidades técnicas não reconhecidas, havia uma infra-estrutura clubística (que melhorou muito desde o rebaixamento de 2007), havia um técnico novato, mas que se mostrou muito determinado e eficaz, em especial na arte de montar uma defesa consistente.
Com isso, e com os primeiros resultados, a confiança foi crescendo, a Fiel empurrando, e o ambiente hostil e competitivo -fardo em todos os setores de atividade humana- se tornou um motivador para que o estado de alerta máximo fosse sustentado. Isso até o relaxamento do segundo turno. Um dos maiores perigos no sucesso... é o próprio sucesso! Ele pode amolecer a fibra do caráter, incutir certos dispositivos de fuga para o prazer, ou para a fantasia, deixando de lado as durezas do compromisso com a realidade. 
Nessas horas é preciso que o indivíduo se volte para seus acervos de energia, encontre essa força que a massa trouxe no treino da véspera da "final" com o Palmeiras, volte a temer o fracasso (estratégia que me parece implícita no desabafo de Neto), mas não com um temor que paralisa, e sim o que estimula, que nos põe em ação, humildes de novo, "quarta força" se preciso, mas atentos, ao mesmo tempo passionais e objetivos, e com tesão de levantar um novo caneco.
Vai Corinthians!


segunda-feira, novembro 13, 2017

o fogo da noite


"Depois de um ano de deterioração da sua saúde e de incerteza espiritual, Blaise Pascal teve uma visão. Foi no dia 23 de novembro de 1654. Às 10h30 da noite, provavelmente quando estava deitado na cama, uma poderosa sensação de bem-estar total e completo, uma certeza tão súbita e completa, que, quando escreveu sobre o fato, encabeçou a página com a palavra fogo. A sensação durou duas horas, e ele tentou capturá-la no papel. Conforme escrevia, seus sentimentos mudaram, pois nenhuma visão pode se sustentar por duas horas, e ele começou a sentir que pecara nos últimos anos. A visão sempre acontece dessa maneira. A sensação inicial é de vitalidade, que faz com que alguém afirme  toda a existência e o amor; amor pelo mundo, amor pela sua realidade física. Conforme essa certeza se esvai, a pessoa se torna ciente da necessidade de disciplina para que essa sensação seja recapturada, e da falta de disciplina no passado. A crônica de Pascal começa da seguinte maneira:
Fogo.
Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos e estudiosos.
Certeza,  certeza, sensação, contentamento, paz."
Colin Wilson,
Superconsciência

Nirvana, "Dive"


domingo, novembro 12, 2017

estranhofobia

Se essa moda pega, nem em meu prédio me deixam mais entrar

Superman - Main Theme


o Deus sem rosto


"Não defendo nenhum princípio, mas sim alguma coisa bem mais maravilhosa, alguma coisa que está em nós, que arde no fogo da vida, que exulta e quer brotar".

"Sempre me pareceu que as coisas são belas, valiosas, quando são presentes, não aquisições".

"Sem dúvida, já naquela época [Lou fala de um poema que compôs na infância] vibrava por trás de minhas experiências e procedimentos o mesmo tom fundamental que não parecia resultar, de modo algum, de um vir-a-ser paulatino, nascido de experiências normais, alegres ou tristes. Era como se proviesse de um antiquíssimo saber não infantil, de uma reexperimentação daquele impacto primitivo comum a todo homem que desperta conscientemente para a vida e do qual a vida não pode deixar de guardar a marca indelével".

[Revelando que o Deus que se perdeu para ela foi apenas o Deus com rosto, o Deus nomeado, não o Deus "elementar", horrível e  belo, clamor condutor da poesia de Rilke, a propósito de quem Lou reflete nessa passagem] "O que está, mesmo para as pessoas 'crentes', na base do nome de Deus? O contato do que nos é ainda acessível a partir da consciência, mas que, contudo, escapa de nossas motivações conscientes, não nos aparece mais como 'nós'; ainda que nós desemboquemos ali e, por isso, agrade-nos sucumbir à tentação de denominá-lo, de objetivá-lo, no mais recôndito de nosso ser".

"Poder deixar algo em suspenso, ao invés de desperdiçar reflexões diante do inacessível não é apenas um direito como também um dever ao qual a inteligência humana deve aspirar".

-Lou Salomé, Minha Vida-
(trechos recolhidos por Salma Muchail em Lou Salomé: o 'Elementar' por sob a Vida)

sábado, novembro 11, 2017

quinta-feira, novembro 09, 2017

nosso ego encabinado

Tirei essa foto na quarta-feira, quando me preparava para mais um ato corriqueiro de comprar bilhetes de metrô. São desenhos do funcionário que me atendeu. Eram vários. Ele estava criando mais um. São sem moldes, não é livro de mandalas pra colorir, saem direto de sua alma, resistente às pressões de uma rotina no mínimo estressante. Vale reparar na personalidade número 2 de nós mesmos, essa que, segundo Jung, vai além dos limites do tempo-espaço, essa que está oculta e não nomeada nos crachás do nosso ego encabinado, essa que fala e desenha e sonha como potência de águia e vulcão.

quarta-feira, novembro 08, 2017

do recuo ao enfrentamento


"A única coisa que devemos temer é o próprio medo: o terror absurdo e infundado que paralisa os esforços necessários para transformar o recuo em enfrentamento"
Franklin Delano Roosevelt, no discurso inaugural quando tomou posse como presidente dos EUA em 1933, no ápice da Grande Depressão

The Cure, "Pictures of You"




Pictures Of You
I've been looking so long at these pictures of you
That I almost believe that they're real
I've been living so long with my pictures of you
That I almost believe that the pictures
are all I can feel

Remembering you standing quiet in the rain
As I ran to your heart to be near
And we kissed as the sky fell in
Holding you close
how I always held close in your fear
remembering you
Running soft through the night
You were bigger and brighter and whiter than snow
And screamed at the make-believe
Screamed at the sky
And you finally found all your courage to let it all go

Remembering you fallen into my arms
Crying for the death of you heart
You were stone white
So delicate
So lost in the cold
You were always so lost in the dark
Remembering you
How you used to be slow drowned
You were angels so much more than everything
Oh hold for the last time then slip away
Quietly open my eyes
But I never see anything

If only i'd thought of the right words
I could have held onto your heart
If only i'd thought of the right words
I wouldn't be breaking apart all my pictures of you

Looking so long at these pictures of you
But I never hold onto your heart
Looking so long for the words to be true
But always just breaking apart my pictures of you

There was nothing in the world that I ever wanted more
Than to feel you deep in my heart
There was nothing in the world that I ever wanted more
Than to never feel the breaking apart all my pictures of you


Senhor, piedade

Até o mais amargo dos ceticismos se recolhe e ora diante de um Kyrie Eleison (Senhor, piedade) como esse gregoriano que se canta em toda Missa do Galo no Vaticano (vide post de ontem). Senhor, piedade por te achar cada vez mais improvável. Olha que os homens que se dizem convictos de Ti também afirmam que o impossível aos homens é possível a Deus; então, Deus do impossível, te considerar um Deus "improvável" não chega a ser uma blasfêmia: é antes um gesto desajeitado de humildade, é minha vontade de não mentir para mim mesmo ao achar que sei ou que creio saber  mais do que a vida me permite fazê-lo. Senhor, piedade.

Kyrie Eleison


quarta-feira, novembro 01, 2017

a alma seca


Já postei esse poema aqui, vários anos atrás. Volto a ele porque ele voltou a mim esses dias, se revelando um clareira maravilhosa sobre os mistérios da alma. A depressão, termo psíquico e geológico, bem traduzido como "fossa", é aqui poço, fenda que se cuida, mas não se fecha nem se cura, no discurso de nosso rio de emoções e potenciais estagnados. Passo a passo, esforço de lavrar, lavra de palavras saindo do isolamento da "situação dicionária" e significando em relação, no jogo vivo dos parlentes, palavras enfrasadas, reconexão, alma em cicatriz, seca minorada.

Rio sem Discurso
João Cabral de Melo Neto
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

as bruxas



Não acredito em bruxas, mas que existem, existem. Vejo-as na potência mágica das mulheres, no encanto que as habita e que inclui mas transcende a eventual e passageira atratividade física. Bruxinhas cintilam nas mulheres de todo tipo que cruzam o céu dos meus chãos em diferentes situações de intimidade e velocidade. Eu reverencio o caldeirão de magia de um coração de mulher. Eu me alimento do perfume bruxo que elas trazem e levam com o vento. Como mães, sábias, amantes, meninas, atrizes, padecendo e gozando as dores e delícias da condição de mulher, essa bruxas resistem às fogueiras do ódio transmutando-as em oferendas de luz.

quarta-feira, outubro 04, 2017

sábado, setembro 23, 2017

House - Life is Pain


Diós, como esse vídeo é bonito. Como o brilho das estrelas que nos chega muitos anos depois de elas estarem mortas, a vida de House me chegou com delay, em relação a seus fãs de primeira hora. mas veio pra ficar. Sua história chegou ao fim, pra mim, nesta semana, mas isto pra viajar novamente em um outro éter independente das coações biofágicas do efêmero, o espaço sagrado das lembranças mais preciosas, essas que nos dão, quando irrompem, uma nova modalidade de razão de seguir adiante, embora, como diz o ranzinza genial do Princeton Plainsboro, viver seja tão doloroso e, acrescento eu, budisticamente tão absurdo. Love you, doutor House.
-Unzuhause- 

sexta-feira, agosto 04, 2017

domingo, julho 30, 2017

terça-feira, junho 27, 2017

sexta-feira, junho 02, 2017

quinta-feira, maio 25, 2017

quarta-feira, maio 17, 2017

no vôlei da vida


Reparem que, num jogo de vôlei, o time se cumprimenta não só quando faz, mas também ao tomar um ponto. Assim devemos ser nos tempos do revés: saudando e energizando e reagrupando as partes num todo motivado para a próxima bola.

a melodia da melancolia


terça-feira, maio 16, 2017

nascer e morrer


Uma das cenas inesquecíveis da terceira temporada de House. Nem com toda a couraça ranzinza costumeira ele resistiu à ternura dessa mãozinha que vinha do ventre do ser lhe saudar e pedir socorro, num momento crítico, entre a vida e a morte, da mãe e do rebento. não foi nem mesmo o dia do nascimento, ao menos do "oficial", pois ele voltou pro ventre curado para aguardar pelos outros nascimentos, o oficial e o que nos aguarda a cada nova provação ao longo da existência. Pois, como diria Erich Fromm:
"O nascimento não é um ato; é um processo. A meta da vida é nascer plenamente, embora sua tragédia consista em que a maioria dos homens morre antes de haver nascido assim. Viver é nascer a cada minuto. A morte ocorre quando cessa o nascimento; psicologicamente, porém, a maioria dentre nós cessa de nascer num determinado ponto. Alguns são totalmente natimortos; continuam a viver fisiologicamente , mas mentalmente anseiam regressar ao ventre, à terra, à treva; à morte; são loucos, quase. Muitos outros seguem mais adiante no caminho da vida. Entretanto, por assim dizer, não conseguem cortar de todo o cordão umbilical; continuam simbioticamente apegados à mãe, ao pai, à família, à raça, ao Estado, ao status, ao dinheiro, aos deuses etc; jamais surgem completos, como eles mesmos e, assim, jamais nascem plenamente."

domingo, maio 14, 2017

sábado, maio 13, 2017

mantra



quinta-feira, abril 20, 2017

o país 171


Diálogo de House com a jovem estuprada 'lubrificou meus olhos', no episódio que assisti às 3h50 desta madrugada (sim, sou desses). Pra secá-las, vejo que o mesmo canal anuncia pra domingo estreia de série nacional sobre um tiozinho safado q adora roubar parentes e amigos e q, afastado por eles, está voltando para enganá-los de novo, possível metáfora do "Lula 2018". Título certeiro: 171. Como produzir aqui algo da grandeza de House sem soar a cópia dublada e vagabunda de idéias fora de lugar?

sábado, abril 15, 2017

Páscoa: Ladainha de todos os santos

Selfie de Cristo para a Morte e o Diabo





quarta-feira, abril 12, 2017

terça-feira, abril 11, 2017

aqueles dias, aquele eu


SURREAL topar, quase vinte anos depois, com uma gravação integral daquela que foi minha primeira e maior aventura como estudante de teatro, no papel do imperador louco da peça "Calígula", a obra-prima de Albert Camus :D Sempre difícil conservar a vitalidade e o impacto de um espetáculo teatral na transposição para o vídeo, fazendo jus ao jogo das luzes, aos sons, ao frisson de comunhão e tensão dos atores entre si (com uma tensão adicional naquela trupe pelos choques de vaidade, dada a natural cobiça pelo papel principal) e com a plateia. 
Mas ao menos se pode ter uma ideia, e, no meu caso, morrer de saudade daqueles dias e daquele "eu" .
 Que bom, entre tantas perdas inevitáveis na torrente do tempo, desfrutar ainda da amizade intelectual de Camus, e com ele poder me engajar em sempre novas aventuras existenciais (são elas que me importam, mais que tudo)  na procura ativa e na espera não-passiva da graça da criação.

quarta-feira, abril 05, 2017

a revolta dos dândis




A Revolta dos Dândis (1987), dos saudosos Engenheiros do Hawaii, faz alusão O Homem Revoltado de Albert Camus -uma de suas seções mais interessantes empresta o nome ao álbum da banda gaúcha e a duas de suas músicas, ambas de forte tom camusiano. A Revolta 1 fala da condição do "estrangeiro", evocando o romance mais famoso do escritor franco-argelino. E como em a Revolta 2, Humberto Gessinger traduz em música o desalento de O Homem Revoltado com a comédia de horrores encenada por esquerda e direita no Ocidente contemporâneo, ambas distantes das raízes mais profundas da vida humana, ambas cúmplices de uma mesma lógica safada, predatória, assassina, useira e vezeira em cagar para o povo, como na última desculpa da diarreica e cropófoga "guerreira do povo brasileiro "que ousamos suportar que fosse nossa dirigente por tempo demasiado, pesadelo ainda não encerrado, vide o vice medíocre que nos legou.
À diferença do mimado histérico que despeja suas afetações em caricaturas estéreis de um mundo melhor, mas também a anos-luz dos conformistas e dos parasitas da ordem mentirosa e opressiva, o revoltado em Camus, transitando pelo absurdo do mundo com a leveza dos dândis de Baudelaire e Byron, encara de frente a falência farsante das velhas dicotomias ideológicas, ao mesmo tempo que faz suas as ambiguidades efetivas da vida, perseguindo, ou se deixando tocar pela sabedoria do Caminho do Meio já antevisto pelo Tatagatha da Índia, que tanto relembra, em certos aspectos, o projeto de  "pensamento mediterrâneo" em que O Homem Revoltado  culmina.
Atentem para esse trecho da música A Revolta dos Dândis II: 

Esquerda & direita, direitos & deveres,
Os 3 patetas, os 3 poderes
Ascensão & queda, são dois lados da mesma moeda
Tudo é igual quando se pensa
Em como tudo poderia ser
Há tão pouca diferença e há tanta coisa a fazer
Nossos sonhos são os mesmos há muito tempo
Mas não há mais muito tempo pra sonhar

Pensei que houvesse um muro
Entre o lado claro e o lado escuro
Pensei que houvesse diferença
Entre gritos e sussurros
Mas foi um engano, foi tudo em vão
Já não há mais diferença entre a raiva e a razão

terça-feira, março 21, 2017

Bird York, In The Deep


Thought you had
All the answers
To rest your heart upon
But something happens
Don't see it coming, now
You can't stop yourself
Now you're out there swimming...
In the deep
In the deep

Life keeps tumbling your heart in circles
Till you... Let go
Till you shed your pride, and you climb to heaven
And you throw yourself off
Now you're out there spinning...
In the deep
In the deep
In the deep
In the deep

And now you're out there spinning...
And now you're out there spinning...
In the deep
In the deep
In the deep

In the silence
All your secrets
Raise their weary heads
And you can't pin yourself
Back together
With who you thought you were
Now you're out there livin'...
In the deep
In the deep
In the deep

In the deep...

Now you're out there spinning...
Now you're out there swimming...
Now you're out there spinning...
In the deep
In the deep
In the deep
In the deep...

terça-feira, março 07, 2017

o Espírito na sarjeta

Flagrei este ato de desprezo à vida do Espírito no domingo (05/03). Resisti até hoje a postar, até porque vinha me relacionando com essa imagem no nível subjetivo, que é o método que empregamos (que Jung ensinou) ao interpretar as pessoas e fatos de um sonho como reflexos de nós mesmos. 
Ou seja, vi nessa cena deprimente um alerta do quanto eu mesmo, com meus próprios recursos e potenciais, posso derrapar em condutas desleixadas como a do cara q fez isso com esses exemplares da obra de Jung. A obra em si não é atingida, claro. Quem sofre são esses exemplares -o que me dói como machucarem um bebê ou um cachorrinho- e a alma estreita que os trata desse jeito. O Espírito é assim: caluniado, nunca atingido, porque no fundo é espelho: quem o agride se agride, confessando seu estágio de baixeza.

Parecia ser a porta daquele sebo na entrada da Paulista (via metrô Paraíso). sebo fechado, por ser domingo,.. havia uma brecha na parede, algo parecido com um espaço de acesso exíguo. 
A pessoa que estava próxima não parecia dona, mas tinha algo a ver com o sebo, e por estar lá me inibiu maiores arroubos de "compaixão" (pra não dizer descida do Espírito Santo, o brasileiro) em mim. 
Sol dos infernos, eu puto com uma decepção amorosa. 
Tudo com muita cara de sonho, até pela importância estrutural que esses livros têm na mina vida, nas minhas alegrias e até nas minhas revoltas, vontades de jogar tudo pelos ares pelo mundo não ser tão significativo quanto eu, quanto Jung, gostaria.

o sanatório da Terra

A pessoa lúcida caminha nessa terra como um visitante de sanatório de retardados.

30 por 13

Edições diretas do russo viraram um fetiche no Brasil. Mas cuidado. Mesmo o ótimo Paulo Bezerra incide em erros bobos, mas graves, como  trocar 30 (o certo) por 13, ao traduzir o número de anos entre os fatos tratados em Os Irmãos Karamazov e a decisão do narrador de contá-los.

domingo, fevereiro 26, 2017

o flautista da febre


O Flautista de Hamelin é um conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelos Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, em 26 de junho de 1284[1][2].
Em 1284[3], a cidade de Hamelin estava sofrendo com uma infestação de ratos. Um dia, chega à cidade um homem que reivindica ser um "caçador de ratos" dizendo ter a solução para o problema. Prometeram-lhe um bom pagamento em troca dos ratos - uma moeda pela cabeça de cada um. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, afogando-os no Rio Weser.
Apesar de obter sucesso, o povo da cidade abjurou a promessa feita e recusou-se a pagar o "caçador de ratos", afirmando que ele não havia apresentado as cabeças. O homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, onde foram enfeitiçados e trancados em uma caverna. Na cidade, só ficaram opulentos habitantes e repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.
E foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.
(Wikipedia)
-x-
No clipe acima, para música que descobri no filme "Os Agentes do Destino" (veja post de ontem), o Flautista faz aflorar, rapta e abduz a Criança interior do povo que então troca a peste do pavor e da rotina pela explosão (fever) da alegria irreverente. E de quebra liberta a princesa e o seu próprio coração prisioneiros para o amor.

-x-

Febre
Nunca se sabe o quanto eu te amo
Nunca se sabe o quanto eu me importo
Quando você coloca seus braços em volta de mim
Recebo uma febre que é tão difícil de suportar
Você me dá febre (você me dá febre) quando você me beija
Febre quando você me abraça forte (você me dá febre)
Febre ... na "manhã
Febre durante toda a noite

Luzes sol até o dia
Lua ilumina a noite
Eu me ilumino quando você chama meu nome
Porque eu sei que você vai me tratar bem
Você me dá febre (você me dá febre) quando você me beija
Febre quando você me abraça forte (você me dá febre)
Febre ... na "manhã
Febre durante toda a noite (WOW!!)
Todo mundo tem a febre
Que é alguma coisa que todos sabem
Febre não é uma coisa tão nova
Febre começou há muito tempo
(Você me dá febre)
Baby, por sua vez em sua luz do amor (yeah, yeah)
Deixá-lo brilhar em mim (yeah, yeah)
Bem, baby, ligue a sua luz de amor (yeah, yeah)
E deixá-lo brilhar em mim (yeah, yeah)
Bem, um pouco maior (yeah, yeah)
E apenas um pouco mais brilhante, baby (yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre.

sábado, fevereiro 25, 2017

declaração de amor


Alisa Zinov'yevna Rosenbaum: menina russa que viu a família ir à ruína com a ascensão dos saqueadores bolcheviques na Revolução que este ano "comemora" o centenário. Nascida em 1905, emigrou pra América aos 21 anos. Lá, assim que chegou, o primeiro livro que comprou foi "Assim Falou Zaratustra", de Nietzsche, uma das influências decisivas da escritora e filósofa que já a menina tinha dentro de si, e que se consagrou com o pseudônimo Ayn Rand. 
 Em romances como "A Nascente" e "A Revolta de Atlas", Rand reaviva e combate, como Orwell, Koestler e outros grandes nomes do século 20, o pesadelo comunista denunciado agora como uma ameaça real no próprio coração da civilização liberal, os EUA.
Com uma prosa envolvente, de forte teor alegórico, mostra como a decadência apodrece o Ocidente através dos bacilos do coletivismo, do medo à liberdade (como diria, mais à esquerda, Erich Fromm), da repressão à minoria mais injustiçada pelas sociedades de massa, o indivíduo, o "Eu", que na novela distópica "Cântico" é uma palavra terminantemente proibida, numa sociedade em que até as amizades espontâneas são causa de cadeia porque vistas como "crime de preferência".
A notoriedade propiciada pelas obras literárias cresceu ainda mais quando Rand se voltou para um trabalho de sistematização de sua filosofia, que designou de "Objetivismo", para enfatizar sua discordância de uma das tendências mais nefastas do pensamento moderno, a recusa da percepção objetiva do real em nome das quimeras do capricho pessoal de cada "pensador", ou melhor, ideólogo. O real merece respeito, devemos sempre partir da (e voltar à) constatação sensata do que "é", sem a qual o "dever ser", o reino dos valores, se perde no delírio e na barbárie.
 Ao projetar valores heroicos em profissões como a de arquiteto ("A Nascente"), e engenheiros, cientistas e empresários ("A Revolta de Atlas"), Rand enfatizava outro aspecto muito desvalorizado pela mentalidade dos ideológos das assim chamadas "humanas": a conexão com a materialidade da vida, em sua lógica dura. Mas não se trata de "materialismo", e sim exaltação do gênio humano no que ele tem de mais notável, a capacidade racional de intervir nas implacáveis leis e recursos da natureza e os aproveitar para propósitos que ela não tinha nem podia ter, na medida em que propósitos "devem ser" e não são, como obras do nosso intelecto e vontade.
Pelo elogio enfático ao capitalismo laissez-faire e denúncia do comunismo que conheceu pelo estômago, por assim dizer, Ayn virou uma espécie de diva da direita americana. Mas pela recusa inflexível da crença religiosa, e valorização positiva que dá à noção de egoísmo, não deixou de causar perplexidade nos meios conservadores, e de despertar furor, a favor ou contra, mesmo depois da morte, em 1982, e até os dias de hoje. .
Ayn, paradoxal. Ayn, urgente. Ayn, meu amor.