Sunday, January 29, 2017

ardendo


"Ardendo ardendo ardendo ardendo"
Nesse verso de Terra Desolada, T.S. Eliot evoca de Buda o Sermão do Fogo, "que equivale em importância ao Sermão da Montanha", acrescenta nas notas que acompanham seu difícil poema, uma das obras-primas da literatura que meditou as catástrofes do Século XX, aliás promissoras também no "novo" tempo que grassa noite adentro. 
O paralelo com o cristianismo é acentuado pelo fato de a estrofe se irradiar também para as Confissões de Santo Agostinho, quando o poeta americano verseja:
"A Cartago então eu vim
Ardendo ardendo ardendo ardendo
Ó Senhor Tu que me arrebatas
Ó Senhor Tu que arrebatas
ardendo"
Na autobiografia do mestre de Hipona, está escrito: "a Cartago então eu vim, onde todos os amores ímpios, como num caldeirão, cantavam em meu ouvido". 

É das Confissões também a evocação ao "Senhor", estranha ao contexto agnóstico da doutrina budista, mas maravilhosamente ressonante com o único "desejo" que esses dois grandes ascetismos conservam, o desejo de abolição de todo apego ao desejo, não via apatia catatônica, mas transformação e transcendência.