domingo, fevereiro 26, 2017

o flautista da febre


O Flautista de Hamelin é um conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelos Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, em 26 de junho de 1284[1][2].
Em 1284[3], a cidade de Hamelin estava sofrendo com uma infestação de ratos. Um dia, chega à cidade um homem que reivindica ser um "caçador de ratos" dizendo ter a solução para o problema. Prometeram-lhe um bom pagamento em troca dos ratos - uma moeda pela cabeça de cada um. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, afogando-os no Rio Weser.
Apesar de obter sucesso, o povo da cidade abjurou a promessa feita e recusou-se a pagar o "caçador de ratos", afirmando que ele não havia apresentado as cabeças. O homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, onde foram enfeitiçados e trancados em uma caverna. Na cidade, só ficaram opulentos habitantes e repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.
E foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.
(Wikipedia)
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No clipe acima, para música que descobri no filme "Os Agentes do Destino" (veja post de ontem), o Flautista faz aflorar, rapta e abduz a Criança interior do povo que então troca a peste do pavor e da rotina pela explosão (fever) da alegria irreverente. E de quebra liberta a princesa e o seu próprio coração prisioneiros para o amor.

-x-

Febre
Nunca se sabe o quanto eu te amo
Nunca se sabe o quanto eu me importo
Quando você coloca seus braços em volta de mim
Recebo uma febre que é tão difícil de suportar
Você me dá febre (você me dá febre) quando você me beija
Febre quando você me abraça forte (você me dá febre)
Febre ... na "manhã
Febre durante toda a noite

Luzes sol até o dia
Lua ilumina a noite
Eu me ilumino quando você chama meu nome
Porque eu sei que você vai me tratar bem
Você me dá febre (você me dá febre) quando você me beija
Febre quando você me abraça forte (você me dá febre)
Febre ... na "manhã
Febre durante toda a noite (WOW!!)
Todo mundo tem a febre
Que é alguma coisa que todos sabem
Febre não é uma coisa tão nova
Febre começou há muito tempo
(Você me dá febre)
Baby, por sua vez em sua luz do amor (yeah, yeah)
Deixá-lo brilhar em mim (yeah, yeah)
Bem, baby, ligue a sua luz de amor (yeah, yeah)
E deixá-lo brilhar em mim (yeah, yeah)
Bem, um pouco maior (yeah, yeah)
E apenas um pouco mais brilhante, baby (yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre.

sábado, fevereiro 25, 2017

declaração de amor


Alisa Zinov'yevna Rosenbaum: menina russa que viu a família ir à ruína com a ascensão dos saqueadores bolcheviques na Revolução que este ano "comemora" o centenário. Nascida em 1905, emigrou pra América aos 21 anos. Lá, assim que chegou, o primeiro livro que comprou foi "Assim Falou Zaratustra", de Nietzsche, uma das influências decisivas da escritora e filósofa que já a menina tinha dentro de si, e que se consagrou com o pseudônimo Ayn Rand. 
 Em romances como "A Nascente" e "A Revolta de Atlas", Rand reaviva e combate, como Orwell, Koestler e outros grandes nomes do século 20, o pesadelo comunista denunciado agora como uma ameaça real no próprio coração da civilização liberal, os EUA.
Com uma prosa envolvente, de forte teor alegórico, mostra como a decadência apodrece o Ocidente através dos bacilos do coletivismo, do medo à liberdade (como diria, mais à esquerda, Erich Fromm), da repressão à minoria mais injustiçada pelas sociedades de massa, o indivíduo, o "Eu", que na novela distópica "Cântico" é uma palavra terminantemente proibida, numa sociedade em que até as amizades espontâneas são causa de cadeia porque vistas como "crime de preferência".
A notoriedade propiciada pelas obras literárias cresceu ainda mais quando Rand se voltou para um trabalho de sistematização de sua filosofia, que designou de "Objetivismo", para enfatizar sua discordância de uma das tendências mais nefastas do pensamento moderno, a recusa da percepção objetiva do real em nome das quimeras do capricho pessoal de cada "pensador", ou melhor, ideólogo. O real merece respeito, devemos sempre partir da (e voltar à) constatação sensata do que "é", sem a qual o "dever ser", o reino dos valores, se perde no delírio e na barbárie.
 Ao projetar valores heroicos em profissões como a de arquiteto ("A Nascente"), e engenheiros, cientistas e empresários ("A Revolta de Atlas"), Rand enfatizava outro aspecto muito desvalorizado pela mentalidade dos ideológos das assim chamadas "humanas": a conexão com a materialidade da vida, em sua lógica dura. Mas não se trata de "materialismo", e sim exaltação do gênio humano no que ele tem de mais notável, a capacidade racional de intervir nas implacáveis leis e recursos da natureza e os aproveitar para propósitos que ela não tinha nem podia ter, na medida em que propósitos "devem ser" e não são, como obras do nosso intelecto e vontade.
Pelo elogio enfático ao capitalismo laissez-faire e denúncia do comunismo que conheceu pelo estômago, por assim dizer, Ayn virou uma espécie de diva da direita americana. Mas pela recusa inflexível da crença religiosa, e valorização positiva que dá à noção de egoísmo, não deixou de causar perplexidade nos meios conservadores, e de despertar furor, a favor ou contra, mesmo depois da morte, em 1982, e até os dias de hoje. .
Ayn, paradoxal. Ayn, urgente. Ayn, meu amor.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

o combate com o Obscuro


Matt Damon, que DOM de topar filmes e personagens que eu curto, que me ressoam. Revi ontem seu "Agentes do Destino", alegoria incrível da melhor reverência possível que uma pessoa forte pode oferecer ao poderoso Obscuro (meu jeito de falar do "oposto" do Encardido) e a seus caprichos incompreensíveis: confrontá-lo. Isso não é heresia, ou teríamos que considerar herético o nome de Israel, "aquele que lutou contra Deus", ou a luta de Jacó contra o Anjo; e é contra os "anjos" do CEO do céu que, na história baseada em conto de Philip K. Dick, o personagem de Matt, jovem candidato ao Senado nos EUA, tem que se defrontar e insistir em reescrever o livro do seu destino para que o amor disruptivo (pela bela Elise, nome da musa de Beethoven em célebre composição) pudesse caber nas suas páginas tingidas, até então, pela monotonia das fingidas regras do sucesso no poder.

sábado, fevereiro 18, 2017

carta de von Mises a Ayn Rand


Prezada Sra. Rand:
Eu não sou um crítico profissional e não me sinto capaz de julgar os méritos desse livro.  Portanto, eu não quero retê-la aqui com a informação que gostei muito de ler A Revolta de Atlas e que fiquei extremamente admirado com a magistral maneira como a senhora construiu o enredo.
Porém, A Revolta de Atlas não é simplesmente uma novela. É também (e principalmente) uma análise persuasiva dos males que assolam nossa sociedade, uma rejeição embasada da ideologia dos nossos pretensos "intelectuais" e um impiedoso desmascaramento da insinceridade das políticas adotadas pelos governantes e políticos.
É uma exposição devastadora dos "canibais da moral", dos "gigolôs da ciência" e da "tagarelice acadêmica" desses criadores da "revolução anti-industrial".  A senhora teve a coragem de dizer para as massas aquilo que nenhum político jamais teve: vocês não seriam nada sem os capitalistas, e todas as melhorias nas suas condições de vida, tudo aquilo que vocês simplesmente assumem como coisa corriqueira, como fato consumado, vocês devem unicamente aos esforços de homens que são melhores do que vocês.
Se isto é arrogância, como muitos de seus críticos disseram, ainda assim é a verdade que precisava ser dita nesta era de assistencialismo estatal.
Eu sinceramente lhe congratulo e aguardo com grande expectativa seu próximo livro.
Ludwig von Mises
(carta por ocasião do lançamento de A Revolta de Atlas nos EUA, em 1957)

terça-feira, fevereiro 07, 2017

amor e individuação



Depois daquele momento inicial de encantamento apaixonado, em que o outro parece "tudo de bom", vem a fase árdua dos desgastes e defeitos, isto é, do que se desvia de nossas expectativas e necessidades, do que o outro tem de menos e demais ou de estagnado. A crise pode rumar para uma incompatibilidade total, ou você pode manter por mais ou menos tempo a expectativa de "corrigir" o outro. Muita chance dessa segunda opção apenas atrasar a amarga desilusão e ruptura.
Não que sejamos imutáveis. Somos não só temporários (efêmeros, impermanentes), como "temporais", seres históricos, se reinventando nas escolhas e conjunturas de cada instante. Um relacionamento pode ser fator de catalisação desse "temporal" em nós, em todos os sentidos. Mas que seja de maneira virtuosa, se é que amor, para além do bem e do mal, com a natureza, pode combinar com "virtude".
Que o campo de forças e influência recíproca não se estruture na base de uma vontade autocrática de um parceiro se impondo ao outro. Os atritos e desafios de uma relação com entrega e respeito vão certamente abalar estruturas, mexendo com o nosso daqui por diante mas também com as latências do passado, com nosso "inconsciente", de que o amante se torna uma espécie de destinatário, portador e para-raio.
Sim, Jung chega a nos dizer que "a outra pessoa é um representante muito forte do (nosso) inconsciente, mas apenas quando é amada de verdade". Nesse caso, a relação se torna uma via alternativa de individuação: ao invés de a sós com nosso inconsciente, ou numa relação terapeuta (coach)- "cliente", o indívíduo vem a se tornar o que é, se descobre, se transforma, com a força medianeira do amado. A boniteza de uma relação forte é essa em que somos esculturas e escultores um do outro, e isso de modo consentido, ainda que doloroso, um "estar-se preso por vontade", um "ter com quem nos mata lealdade" (Legião Urbana, "Monte Castelo").

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

empatia claustrofóbica


"Maníaco": duas horas de filme e o espectador literalmente na cabeça do psicopata Frank, dono de uma loja de manequins que ele tem o hábito de revestir com o cabelo de suas vítimas escalpeladas. Vemos de dentro pra fora seus surtos, memórias, caça a mulheres que irão "pagar" por sua mãe puta. Vemos tambem o afeto que emerge pela lindíssima Anne, fotógrafa com quem o trabalho criativo (Eros) é possível, mas que entra em luta com a pulsão mortal (Tânatos) de lhe fazer mãe (não como um homem normal gostaria, ou seja, mãe de seus filhos) e "precisar" puni-la por isso.Tudo desde seu ponto de vista, inclusive óptico, o rosto dele quase só aparece em reflexos no espelho. Remake de filme dos anos 80, parece propor uma claustrofóbica empatia do espectador com o que poderia haver de mais monstruoso dentro de si. Disturbing.