Saturday, February 25, 2017

declaração de amor


Alisa Zinov'yevna Rosenbaum: menina russa que viu a família ir à ruína com a ascensão dos saqueadores bolcheviques na Revolução que este ano "comemora" o centenário. Nascida em 1905, emigrou pra América aos 21 anos. Lá, assim que chegou, o primeiro livro que comprou foi "Assim Falou Zaratustra", de Nietzsche, uma das influências decisivas da escritora e filósofa que já a menina tinha dentro de si, e que se consagrou com o pseudônimo Ayn Rand. 
 Em romances como "A Nascente" e "A Revolta de Atlas", Rand reaviva e combate, como Orwell, Koestler e outros grandes nomes do século 20, o pesadelo comunista denunciado agora como uma ameaça real no próprio coração da civilização liberal, os EUA.
Com uma prosa envolvente, de forte teor alegórico, mostra como a decadência apodrece o Ocidente através dos bacilos do coletivismo, do medo à liberdade (como diria, mais à esquerda, Erich Fromm), da repressão à minoria mais injustiçada pelas sociedades de massa, o indivíduo, o "Eu", que na novela distópica "Cântico" é uma palavra terminantemente proibida, numa sociedade em que até as amizades espontâneas são causa de cadeia porque vistas como "crime de preferência".
A notoriedade propiciada pelas obras literárias cresceu ainda mais quando Rand se voltou para um trabalho de sistematização de sua filosofia, que designou de "Objetivismo", para enfatizar sua discordância de uma das tendências mais nefastas do pensamento moderno, a recusa da percepção objetiva do real em nome das quimeras do capricho pessoal de cada "pensador", ou melhor, ideólogo. O real merece respeito, devemos sempre partir da (e voltar à) constatação sensata do que "é", sem a qual o "dever ser", o reino dos valores, se perde no delírio e na barbárie.
 Ao projetar valores heroicos em profissões como a de arquiteto ("A Nascente"), e engenheiros, cientistas e empresários ("A Revolta de Atlas"), Rand enfatizava outro aspecto muito desvalorizado pela mentalidade dos ideológos das assim chamadas "humanas": a conexão com a materialidade da vida, em sua lógica dura. Mas não se trata de "materialismo", e sim exaltação do gênio humano no que ele tem de mais notável, a capacidade racional de intervir nas implacáveis leis e recursos da natureza e os aproveitar para propósitos que ela não tinha nem podia ter, na medida em que propósitos "devem ser" e não são, como obras do nosso intelecto e vontade.
Pelo elogio enfático ao capitalismo laissez-faire e denúncia do comunismo que conheceu pelo estômago, por assim dizer, Ayn virou uma espécie de diva da direita americana. Mas pela recusa inflexível da crença religiosa, e valorização positiva que dá à noção de egoísmo, não deixou de causar perplexidade nos meios conservadores, e de despertar furor, a favor ou contra, mesmo depois da morte, em 1982, e até os dias de hoje. .
Ayn, paradoxal. Ayn, urgente. Ayn, meu amor.