Monday, February 06, 2017

amor e individuação



Depois daquele momento inicial de encantamento apaixonado, em que o outro parece "tudo de bom", vem a fase árdua dos desgastes e defeitos, isto é, do que se desvia de nossas expectativas e necessidades, do que o outro tem de menos e demais ou de estagnado. A crise pode rumar para uma incompatibilidade total, ou você pode manter por mais ou menos tempo a expectativa de "corrigir" o outro. Muita chance dessa segunda opção apenas atrasar a amarga desilusão e ruptura.
Não que sejamos imutáveis. Somos não só temporários (efêmeros, impermanentes), como "temporais", seres históricos, se reinventando nas escolhas e conjunturas de cada instante. Um relacionamento pode ser fator de catalisação desse "temporal" em nós, em todos os sentidos. Mas que seja de maneira virtuosa, se é que amor, para além do bem e do mal, com a natureza, pode combinar com "virtude".
Que o campo de forças e influência recíproca não se estruture na base de uma vontade autocrática de um parceiro se impondo ao outro. Os atritos e desafios de uma relação com entrega e respeito vão certamente abalar estruturas, mexendo com o nosso daqui por diante mas também com as latências do passado, com nosso "inconsciente", de que o amante se torna uma espécie de destinatário, portador e para-raio.
Sim, Jung chega a nos dizer que "a outra pessoa é um representante muito forte do (nosso) inconsciente, mas apenas quando é amada de verdade". Nesse caso, a relação se torna uma via alternativa de individuação: ao invés de a sós com nosso inconsciente, ou numa relação terapeuta (coach)- "cliente", o indívíduo vem a se tornar o que é, se descobre, se transforma, com a força medianeira do amado. A boniteza de uma relação forte é essa em que somos esculturas e escultores um do outro, e isso de modo consentido, ainda que doloroso, um "estar-se preso por vontade", um "ter com quem nos mata lealdade" (Legião Urbana, "Monte Castelo").