Tuesday, April 04, 2017

a revolta dos dândis




A Revolta dos Dândis (1987), dos saudosos Engenheiros do Hawaii, faz alusão O Homem Revoltado de Albert Camus -uma de suas seções mais interessantes empresta o nome ao álbum da banda gaúcha e a duas de suas músicas, ambas de forte tom camusiano. A Revolta 1 fala da condição do "estrangeiro", evocando o romance mais famoso do escritor franco-argelino. E como em a Revolta 2, Humberto Gessinger traduz em música o desalento de O Homem Revoltado com a comédia de horrores encenada por esquerda e direita no Ocidente contemporâneo, ambas distantes das raízes mais profundas da vida humana, ambas cúmplices de uma mesma lógica safada, predatória, assassina, useira e vezeira em cagar para o povo, como na última desculpa da diarreica e cropófoga "guerreira do povo brasileiro "que ousamos suportar que fosse nossa dirigente por tempo demasiado, pesadelo ainda não encerrado, vide o vice medíocre que nos legou.
À diferença do mimado histérico que despeja suas afetações em caricaturas estéreis de um mundo melhor, mas também a anos-luz dos conformistas e dos parasitas da ordem mentirosa e opressiva, o revoltado em Camus, transitando pelo absurdo do mundo com a leveza dos dândis de Baudelaire e Byron, encara de frente a falência farsante das velhas dicotomias ideológicas, ao mesmo tempo que faz suas as ambiguidades efetivas da vida, perseguindo, ou se deixando tocar pela sabedoria do Caminho do Meio já antevisto pelo Tatagatha da Índia, que tanto relembra, em certos aspectos, o projeto de  "pensamento mediterrâneo" em que O Homem Revoltado  culmina.
Atentem para esse trecho da música A Revolta dos Dândis II: 

Esquerda & direita, direitos & deveres,
Os 3 patetas, os 3 poderes
Ascensão & queda, são dois lados da mesma moeda
Tudo é igual quando se pensa
Em como tudo poderia ser
Há tão pouca diferença e há tanta coisa a fazer
Nossos sonhos são os mesmos há muito tempo
Mas não há mais muito tempo pra sonhar

Pensei que houvesse um muro
Entre o lado claro e o lado escuro
Pensei que houvesse diferença
Entre gritos e sussurros
Mas foi um engano, foi tudo em vão
Já não há mais diferença entre a raiva e a razão