Thursday, July 02, 2009

CAMPEÃOOOOOOOOOOOOOO




Wednesday, July 01, 2009

sofredor graças a Deus


Capa de Corintiano Graças a Deus, livro de Dom Paulo Evaristo Arns

Festa da Fiel

Ao contrário do que mostra a foto acima, seremos poucos hoje no Beira-Rio, que segundo promessa de um ilustre vagabundo da alta cúpula do Internacional, será um "inferno" para nós. O mesmo ilustríssimo que tratou de antecipar o inferno com manobras absolutamente condenáveis para pressionar a arbitragem do jogo de hoje. Mas de Inferno nós conhecemos. Morremos e renascemos tantas vezes ao longo da nossa história, e sempre sob o estigma do Sofrimento. Se Jesus Cristo não fosse corintiano (e é!! rs), apóstolos maravilhosos dele, como Dom Paulo Evaristo Arns, trataram de sê-lo, nada mais lógico. Não por acaso somos a "Fiel Torcida", a "Gaviões da Fiel". Fiéis como os devotos da missa, dos santos. Há time mais "cristão" em termos de identificação com as massas, com os pobres e com a dor de existir? Com a dor da "paixão" ??
Não há redenção possível sem a dor. Felix culpa, disse santo Agostinho: feliz culpa de Adão, que nos tornou necessitados de redenção tão deliciosa como a de Cristo. Feliz culpa de nascer gauche na vida, loser, humilhado e ofendido, fudido mesmo, para merecer tão simbólica remissão no amor ao Coringão. Não como quem goza com o pau dos outros, mas como quem reencontra no inconsciente coletivo a própria fome de fuder reprimida no inconsciente pessoal.
Voltando à foto, ela mostra um instante de êxtase que daria em seguida lugar à perda: ganhamos ano passado o primeiro jogo da final da Copa do Brasil, contra o Sport, por largos 3 a 1. Mas perdemos o segundo por 2 a 0, o suficiente, dizia o regulamento, para o título ficar em Recife. Hoje a decisão não é lá "em cima", é embaixo: num frio e chuvarento Rio Grande do Sul. E o script começou parecido: ganhamos bem o primeiro jogo.
Por que não um repeteco da tragédia hoje? É a questão e o desejo da segunda maior nação do Brasil (a dos anti-corintianos; a primeira é a dos corintianos). Sim, pode acontecer. O time do Inter é fortíssimo, e mostrou isso inclusive na derrota por 2 a 0 aqui no Pacaembu. Mas quer saber? Estou me lixando. Embora inadmissível para os parâmetros lógicos e éticos de nossos dirigentes (como o imbecil do Internacional), o futebol tem que ser visto como processo, como estrutura, não na mera contingência de resultados pontuais. E o Coringão vive hoje um processo bacana, construtivo, após o desastre do rebaixamento. Esse processo, essa estruturação, é o que mais importa, e tem que continuar, independentemente de ganhar ou perder esta noite. E se ganhar, por favor, nada daquela obsessão babaca de Libertadores (para a qual o vencedor de hoje estará classificado). Sem querer cair em contradição com o que acabei de dizer sobre a importância do processo, não do fortuito, penso que ao invés de se prender a cobiças futuras, importa viver o momento, na derrota ou na vitória. Vivê-lo plenamente, ou seja, corintianamente, no gozo doído das vitórias e derrotas. Claro que será legal ser campeão da Libertadores no ano de nosso centenário (2010), mas o objetivo não pode ser inflacionado a ponto de esmagar o percurso. Título algum pode ser maior do que já somos, nada supera a grandeza essencial de ser Corinthians.
Seremos poucos no Beira-Rio, como dizia no início. E seremos vaiados, hostilizados. Um inferno. Mas o inferninho do Beira-Rio é uma boate vagabunda perto do Inferno que é habitual ao time do povo (quando é que o povo também será um "time", terá consciência de classe?). E é de nosso Inferno, a "beira-rio" do Aqueronte, onde até o Redentor desceu quando de sua "paixão", morte e ressurreição, que estamos torcendo por você, Timão. E o esperando de braços abertos, na vitória ou na derrota, depois de mais uma página linda, gloriosa e sofrida de nossa História, a ser contada e vivida hoje à noite.
VAAAI CORINTHIANS!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Monday, June 29, 2009

as palavras e as coisas


Chego agora de um profícuo encontro com os novos companheiros de cartel. Cartel, como assim? Não, não estou lançando tentáculos sobre o mercado capitalista, não tenho apetites monopolizadores, nem mesmo o amor pra mim toma essa configuração burguesa-patriarcal da posse de uma mulher como se fosse "coisa" econômica. Claro que há delícias a explorar na sensação de ser coisa que fode, que funde e se funde com outra pessoa "coisificada" -não há relação sexual, segundo Lacan, mas ele fala aqui da completude sonhada, e impossível, entre dois sujeitos -eles nunca, de fato, se entenderão, como bem o sabia Manuel Bandeira, embora as carnes, elas sim, possam se entender, mais que isso, possam se dar e receber uma à outra, num rito criador e destruidor. Verdadeiro potlatch do prazer.

Fujo completamente do assunto que me trouxe aqui hoje, o cartel. É uma espécie de grupo de estudos, reunido em torno de uma questão teórica ou clínica geral, mas que se desdobra em questões de pesquisa específicas de cada pesquisador, escolhidas e desenvolvidas individualmente. Trata-se, por falar em Lacan, de uma das instâncias mais importantes da formação teórica e prática de um psicanalista, segundo o mestre francês, que aliás odiaria o qualificativo de mestre. Minha impressão inicial do grupo foi excelente. Sei que poderei me decepcionar, chega quase a ser uma tendência inevitável: não foram poucas minhas decepções a respeito dos intelectuais, sobretudo ao se passar da beleza das idéias, ou seja, das "coisas" mentais, às complicações das pessoas portadoras de tais idéias.
Confesso que comecei esse texto com outra intenção, disposto a repercutir uma determinada fala minha que surgiu no encontro, mas o raciocínio que esbocei até aqui, prefiro interrompê-lo neste instante, aliás inspirado numa das "esquisitices" geniais de Lacan. Ele criou o chamado tempo lógico como recurso a mais para o analista; este pode interromper uma sessão a qualquer momento, mandar seu paciente pra casa após as primeiras falas, não há o standard de 50 minutos obrigatórios por exemplo, e a sessão pode durar segundos ... embora, é bom advertir meus futuros pacientes rs, custe o mesmo que sempre.
Acusaram Lacan de criar assim uma estratégia para "encaixar" mais pacientes na agenda, e assim engordar mais a conta bancária. Acho essa uma maneira meio "pobre" (sem trocadilho) de encarar esse tão interessante dispositivo não só metodológico, mas também teórico, até mesmo filosófico: uma técnica que convida o analisando a lidar melhor com algo que talvez esteja entre as coisas que o fazem sofrer, por ainda não ser aceita na vida cotidiana: o aspecto necessariamente opaco e incerto do tempo e da palavra, o aspecto angustiante e enigmático do desejo, aspectos esses não plenamente entendidos nunca, mas que podem ser mais bem conectados à consciência se estendidos (mais que entendidos) num tempo relativístico, instável e retroativo, um "só-depois" que avalia o nosso eu pelo que fez e falou, um eu em situação, o eu agente e ator, em suas circunstâncias e em suas consequências. Um eu, portanto, que não se limitará nunca, enquanto durar o véu de maia da vida, a uma mera coisa, por mais que o desejemos.
É isso que passo agora a fazer desses dizeres "impensados" sobre cartel, amor e grupo. Aliás, por que a palavra "grupo" tem em português um sentido possível como trapaça? ("-Ah, isso é grupo, me alertou fulano".)

Friday, June 26, 2009

black and white

Michael Jackson (1958- 2009)

Minha homenagem singela ao maior ícone da cultura pop contemporânea. Quem diz maior supõe uma comparação dentro de determinada série de coisas comparáveis. Você é mais que isso: você foi literamente fora de série, porque fundador dela: inventou o pop dos dias de hoje, há quase trinta anos. Depois de você, só imitadores. Pequeninos e canastrões na maioria, mas imitadores, todos. Simulacros. O standard é você. Para virar mito, só faltava isso: morrer cedo demais. Não deu outra.. Good-bye, mito! Hello, mito! Como todo mito, como todo arquétipo, a ambiguidade em pessoa. "Bom" e "mau". Black and white. Luz e sombra, para além dos holofotes de uma sociedade que ama ter fantoches úteis para se chupar e depois julgar e jogar fora feito bagaço. Pois você escapou do circo. Não se deixou assimilar, ainda que ao preço, dizem as ôtoridades, da "sanidade". Louco ou Gênio? Perverso ou Ingênuo? Homem ou Lobisomem? Conto de Peter Pan ou Thriller de horror? Deixe que os achistas tentem te definir por dicotomias rasas na planície. Pois você paira acima, bem acima, leve e carismático, com seus passos de Fred Astaire, num vídeoclipe eternamente jovem.

Wednesday, June 24, 2009

amo você jaguncinha de mí vida

Música linda dos tempos em que eu ainda achava que amor era só coisa de músicas lindas rs......amoooooooooooooo você.

Jim Diamond - I Should Have Know Better

And I should have known better to lie with one as beautiful as you.
Yeah, I should have known better to take a chance on ever losing you.
But I thought you'd understand, can you forgive me?
I saw you walking by the other day.
I know that you saw me, you turned away and I was lost.
You see: I've never loved no one as much as you.
I've fooled around but tell me now just who is hurting who?
And I should have known better to lie with one as beautiful as you. ...
I-I-I-I-I-I-I-I-I-I should have known better, I-I-I-I-I-I-I-I-I-I
should have known better.
It's true, I took our love for granted all along.
And trying to explain where I went wrong,
I just don't know.
I cry but tears don't seem to help me carry on.
Now there is no chance you'll come back home, got too much pride.
And I should have known better to lie with one as beautiful as you. ...
I-I-I-I-I-I-I-I-I-I love you, I-I-I-I-I-I-I-I-I-I-I love you.
No-no-no-no-no-no I love you!
No-no-no-no-no-no, yeah!
And I should have known better to lie with one as beautiful as you

Monday, June 22, 2009

santidade, incêndio e abismo



Monastério budista Taktshang, "ninho do tigre", no Butão; fundado em 1692, completamente restaurado após incêndio em 1998, fica à beira do abismo do Himalaia.
Deus meu, não deixe nunca que a santidade se degrade em pretexto para a couraça afetiva.
Ele, com a Imitação de Cristo fazendo volume no bolso da jaqueta preta (estava todo de preto, sua cor predileta), caminhava absorto na santa avidez de comprar mais e mais livros, quando sentiu se mexer repentino e serpentino outro volume, Imitação do Anti, do demo, na calça, ao deparar com aquela lojista de artigos religiosos (de sua religião do consumo, digo). Ficou zonzo, não sabia para onde ir. A Rocha das seguranças fez-se fenda de angústia e rachou e abriu. Pedaços incendiados despecando no nada. Homem comum enfim. Devorado, mas pelos seus próprios olhos, mastigava, mas suas próprias unhas. Não conseguia parar de segui-la com os olhos, a lojista, que corpo!, parecia hipnotizado, esqueceu das compras, afundava mais pesado nelas. "Por isso os islâmicos prendem e nivelam suas mulheres no véu, dos pés ao último fio de cabelo", suou (como são terríveis esses suores-pensamentos): "para que nem os anjos caiam em tentação e percam e troquem a cabeça aureolada de cima pela suja cabeça de baixo". Outro balbucio de vapor sem sentido: "Deixam as mulheres parecendo fantasia de fantasma".
Deus meu, que tua companhia seja o "synthome" lacaniano da invenção e do laço no buraco e no descompasso, mas não o "sintoma" freudiano que tudo inverte, que tudo distorce, desloca, que se delira projetando a si mesmo nos moinhos de vento a combater, que foge das pechas ridículas que o assombram de dentro. Que mortifica a carne porque o espírito é impotente.
Meu monastério, eu o visualizo nos subterrâneos de Dante e Dostoiévski - sem a tradução estereotipada e de segunda mão dos vieses ideológicos, das camisas-de-força (aliás bem fraquinhas) de quaisquer Dogmas, prefiro o originário polifônico do Inferno. Como toda Árvore da Vida, a cruz dos trabalhos evolutivos se enraíza entre os cactos do Inferno para poder gerar rosas no céu. Nem que o céu, para os pesados filhos do adâmico Ícaro, seja sempre habitação no perigo perpétuo do abismo, drama existencial de que encontrei hoje uma alegoria concreta perfeita nesse fantástico co-irmão monástico do Himalaia (vide fotos). Mosteiro e abismo que, juntos, como os exercícios de contemplação, pelos monges, da caveira de irmãos falecidos, simbolizam também o clássico "memento moris" (lembra-te que morrerás), tão crucial à jornada espiritual.
Mas muitas vezes ele, de preto, suado, com a Imitação de Cristo no bolso, com a Imitação do diabo no corpo, precisa lembrar é que vive. O incêndio do diabo pode ser esse memento mortalmente vital.
Himalaias do desejo, que não sejais "pacificação" forçada da balbúrdia ab-surda para surdos da planície, ruído que esconde polifonias nupciais que acenam aos que têm ouvidos para ouvir, e mãos para fazer, não patas bovinas para aplaudirem-se uma à outra, como os espectadores idiotas se cumprimentando na feira burguesa das "idéias inteligentes" de se comprar e se falar sem viver.

Sunday, June 14, 2009

sobre deuses e espantalhos



Gostaria de compartilhar com os visitantes deste monastério subterrâneo algo que meus emissários da superfície me trouxeram para que eu brincasse com o tédio e o frescor desta friorenta manhã de domingo.
Trata-se do artigo "Vôo cego", de Ferreira Gullar na Folha de hoje. Foi um dos melhores comentários que li sobre a tragédia do vôo do avião da Airfrance (desculpem, pra mim continua sendo "vôo", não vou aceitar até quando puder as mutilações imbecis que estão tentando fazer na minha sagrada língua portuguesa: voo, ideia e outras excrescências).
Acho que Gullar me tocou por tocar também em certos complexos pessoais da minha psique, por exemplo a idéia de Deus como fuga, como necessidade de apaziguar imaginariamente a angústia de existir.
Outro dos expedientes que experimentei, desde a infância, e que me vêm à mente ao ler a crônica do poeta, é uma atitude ante o risco das catástrofes, de todas as escalas: um certo "pessimismo" que, na verdade, gostaria de ser convencido do contrário do que diz. Exemplos hoje amenos, que de amenos nada têm quando sentidos: "ahhh, aquela gata é impossível", ou: "nossa, acordei com um medo de que o Corinthians vai perder": e no instante mesmo desses pensamentos, ir "sub-pensando" (cf. Stanislávski e o "subtexto" no teatro) o contrário do que foi pensado. Esse pessimismo supersticioso joga assim: penso no pior, se acontecer, eu já sabia, se não acontecer, melhor pra mim. É um jeito de nunca ser contrariado pela realidade rs.
Claro que, com o tempo, esses castelos de areia viriam, e vieram, abaixo, tragados por uma realidade que, fui percebendo, não é boa nem má, apenas é como é. Bem e o Mal são valores humanos, conosco nascem, conosco se vão. Ser um obsessivo (ou fóbico) do Mal, do que chamemos de Mal, não impedirá que ele aconteça.
Renunciando às bruxarias psicológicas do pessimismo, emagreço a aura: perco um pouco do egoísmo de achar que minha pena, ante o Mal do mundo, é sofridamente pensá-lo, como se fosse para os outros, os ingênuos, o fardo de vivê-lo.
Sem tantos deuses inúteis ou espantalhos "úteis", a vida segue mais leve e verdadeira seu vôo cego rumo a coisa nenhuma. Vôo cego ao menos aos olhos da razão controladora e utilitária desta espécie pretensiosa, infantil, quando não ridícula, que somos nós.


FERREIRA GULLAR

Voo cego

(Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, 14 jun 2009)

NÃO SE TRATA de que o que irá acontecer já esteja escrito. Os gregos pensavam assim e, ainda hoje, há quem pense igual: se não é o Destino, é Deus. Mas há quem acredite que coisas acontecem por uma combinação de acaso e necessidade, sendo que o que chamamos de acaso não é mais que uma probabilidade real embora imprevisível. É que a complexa tessitura da existência excede nossa capacidade de abarcá-la e, menos ainda, de prevê-la. Assim, nós, seres humanos, em face da imprevisibilidade da vida, inventamos Deus, que é a Providência, ou seja, aquele que nos protege do imprevisível, do acaso, isto é, da bala perdida. Pois bem, como disse no começo, não se trata de que o que vai ocorrer na viagem de Guto -que neste momento arruma a mala- à Europa esteja escrito. Não está, mas, na intrincada cadeia de probabilidades, dada a ação de tantos fatores que, cegamente, prepararam o futuro, pode a aeronave despencar de 11 mil metros de altura ou simplesmente explodir.Assim, sem de nada saber, fechou a mala, pôs no ombro a sacola e dirigiu-se para o elevador. Atravessou o hall de entrada e caminhou até o táxi. Depois que o chofer guardou-lhe a bagagem no porta-malas, Guto, já acomodado no banco de trás, falou-lhe:- Para o aeroporto Tom Jobim.- Vamos nessa. Quer que ligue o ar refrigerado?- Por enquanto, não.Estavam em Copacabana e o melhor caminho àquela hora era pela avenida Atlântica, mesmo porque Guto preferia ver o mar a sentir-se sufocado em meio a ruas saturadas de tráfego.O táxi entrou, depois, pela Princesa Isabel, passou pelo Túnel Novo e dirigiu-se para o Aterro do Flamengo. Durante todo esse caminho, ele olhava a cidade com uma sensação estranha, como se despedisse dela. Evitou esse pensamento e voltou-se para a enseada de Botafogo, tranquila naquele fim de tarde. Ao fundo, o Pão de Açúcar erguia-se granítico e eterno, o que lhe fez pensar nas tantas e tantas pessoas que, ao longo do tempo, o viram ali e se foram, enquanto ele continua. Para livrar-se dessas ideias, pegou o celular e ligou para Júlia.- Oi, amor, tudo bem com você?... Ainda estou no táxi, a caminho do aeroporto... Ontem à noite foi bom, não foi?Conversaram ainda um pouco, mas ela estava de saída para a casa da irmã, onde passaria alguns dias.O táxi seguia agora pela Linha Vermelha, como sempre engarrafada àquela hora. Mas tinha tempo suficiente, pois, quando viajava, sempre saía de casa com bastante antecedência para evitar estresse. E com razão, pois quando desceu do carro no aeroporto faltavam ainda duas horas para o embarque. Por isso, sem pressa, ainda que estranhamente apreensivo, dirigiu-se para o balcão da Air France, onde teve de enfrentar uma fila de bom tamanho. Finalmente, despachou a bagagem, recebeu o cartão de embarque e caminhou até o restaurante para beber alguma coisa, enquanto esperava a chamada. O restaurante estava lotado, como costuma acontecer ultimamente, tal é o número de pessoas que viajam de avião. Preferiu ir logo para a sala de embarque, onde se acomodou e ficou lendo a revista que levara consigo.Enquanto isso, acima do Atlântico, na zona de convergência intertropical, por onde o seu avião inevitavelmente passaria, armava-se uma feroz tempestade. Nuvens de tamanho incomensurável, como negras montanhas móveis, carregadas de eletricidade e granizo, juntavam-se naturalmente, sem qualquer propósito, movidas aleatoriamente pelas correntes atmosféricas.Sem de nada saber, Guto, ao ouvir a chamada para o embarque, entrou na fila que já se formara à porta da aeronave. Ali estava ele, tomado de estranha apreensão, como nunca lhe ocorrera nas viagens que frequentemente fazia. Nunca ficara tenso, mesmo porque, mal sentava na poltrona, caía no sono e só acordava horas depois, quando a viagem já chegava ao fim. Desta vez, porém, a tranquilidade costumeira mudara-se em tensão, e tenso esperou até que os motores começassem a funcionar e o avião levantasse voo.Não só lá fora, sobre o Atlântico, uma ameaça se armava, mas também no avião, na sua estrutura eletromecânica, alguma coisa inesperada parecia insinuar-se, como falha ou pane. Se na natureza os processos se desenvolvem sem nenhum propósito ou finalidade, no avião, ao contrário, máquina que é, obra humana, tudo cumpre uma função determinada, para fazê-lo voar. Se alguma coisa falha...Só que, para Guto e as outras 220 pessoas que, no bojo daquele Airbus-A330, seguiam para Paris, era impossível sabê-lo, já que, na ausência dos deuses, todo voo é cego. Para o bem ou para o mal.