Thursday, February 09, 2012
Sunday, February 05, 2012
Saturday, February 04, 2012
reconvexando geral
Reconvexo
Maria Bethânia
Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte
Com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música a mais velha
Mais nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados,
sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo
Thursday, February 02, 2012
louco por esse filme.....
"Perder a conta" de quantas vezes se viu um filme... exagero retórico, certo? Errado. É exatamente o que está acontecendo na minha "relationship" com "Amor e Outras Drogas". Telecine desembestou a passar, e eu a devorar. Qualquer horário dia noite e madrugada. Não consigo dizer não.. Por que será? Pistas:
1) Um casal maravilhoso, tanto quanto a história de amor, dessas que o cinema americano conseguiria impor aos afetos até do mais intolerante cinéfilo godardiano. A metanóia (conversão) existencial de ambos, a queda ("fall" in love) da carne que foge de ser ao corpo frágil, imperfeito, mas que enfim assume a coragem de se dar, amando para além do risco, do medo, da morte. Topamos com milhões, só raramente tocamos e nos deixamos tocar por alguém-"milagre" de fusão que, anônimos átomos, aguardamos sob os tráfegos da multidão, milagre pelo qual acendemos velas em segredo e vamos religiosamente ao cinema para comer e beber com coca e pipoca, e chorar e suspirar por comunhão.
2) Anne Hathaway, impecável. Vejo e revejo e a cada vez procuro um detalhe novo de seu olhar, corpo, fala, de sua graciosidade. Seus recursos de atriz que faz da beleza não muleta, mas poder.
3) Jake Gyllenhaal - O cara, descobri agora, fez um dos cowboys gays do maravilhoso "Segredo de Brockback Mountain". Aperta um pouco o coração, não pelo outro filme, mas pelo egoísmo natural (meu) de quem se deixou fascinar por algo / alguém e quer que isto continue naquela mesma idade (atemporal) e mesmo "papel" que me cativou. O Ser se torna menos "nosso", ou nós, menos dele, ao decair (mos) platonicamente do Uno ao Múltiplo. Mas enfim, por outro lado, redescobrir Jake naquele outro filme só me reforça o fato de se tratar de um ator diferenciado, na ousadia e talento, na grandeza e, ok, admito, na beleza. Também para ele um poder a serviço de sua arte.
4) O amor, a paixão (pathos), a doença (pathos), a injustiça da degenerescência que paira sobre tudo o que há de mais belo, ameaçando apodrecer o fruto mais perfeito. A realidade do Parkinson, sem mistificação, mas com beleza em sua tragédia, não só por se tratar, claro, de uma paciente do porte de Maggie (Anne), mas também quando desalentado marido de uma paciente comenta com Randall (Jake): "Isto não é uma doença, é um romance russo". Referia-se à desgraça da vítima -e das vítimas da vítima-, os tremores, demência, os espetáculos da degradação, como precisar limpar os desejos (queria escrever os dejetos, mas vou deixar o ato falho rs) do doente. Me fez ir correndo reabrir meu Dostoiévski..Ao invés de começar a tomar um psicotrópico sugerido na vida "real", que me traria, exatamente, risco de sintomas parkinsonianos como possível efeito colateral.
5) O filme relembra e talvez seja para a posteridade a grande narrativa simbólica do advento do Viagra. Para além disso, encanta pela força com que toca na questão da indústria farmacêutica em geral.Minha mãe me falara do filme , foi mamãe (sempre ela) a me precipitar desavisado em mais esta paixão e no vício. Mamãe, professora uspiana de farmácia, estudiosa da homeopatia e ancestralmente desconfiada das toxinas alopáticas, espertamente pressentiu num filme como este um alerta de que eu precisava. E de fato o filme toca em cheio em meus dilemas com a medicalização da alma pela qual o corpo se me tornou um fardo infernal nos últimos anos. Verdade que se acorri a remédios é porque também a alma estava mal, mas acho que "era feliz e não sabia" do meu jeitinho, sem tanto blablabla analítico e quimico-terapêutico em torno (só em torno, nunca através) da agonia e da loucura, afinal estados do Ser. Os efeitos colaterais eram pelo menos "meus", não de um corpo que não me pertence, palco de batalha de medos, contágios imaginários, desestruturação, enfado e desleixo. Velho fantasma infantil do corpo-lixo reciclando-se em senilidade precoce. Minha revolta é de sentir o Amor como a verdadeira cura, mas me enredar vida toda na droga do desamor de uma merda de realidade e de sociedade e de "euidade" que me degeneram.
Ah, que tolo querer enumerar e explicar o que simplesmente cabe (e não cabe) no sentir. AMO este filme, estou viciado nele, sem moderação.
-Unzuhause-
Saturday, January 28, 2012
desmame dos sonhos e desamparo cria-dor
Li (veja a seguir) uma explicação cosmológica (mítica, em verdade) no mínimo consoladora sobre esse estado de desamparo que o homem vem cavando para si mesmo, seja pelo heroísmo de quem despertou das ilusões, ou pela covardia de quem já não tem olhos senão para o próprio umbigo.
Biograficamente o mito me ressoa como o fardo de me ver em completo desamparo ante as forças formativas e protetoras de outrora. Necessitado de auto-gestão, de remuneração produtiva, de caminhar pelas próprias pernas e pagando as próprias contas. Como num filme que vi ontem, "Cyrus", é complicado para "o menino magnífico da mamãe" -estágio matriarcal do Eu Ideal, segundo Lacan- aceitar a cesura e o sangramento imposto pelos testes da Morte, da Lei, do Tempo, da troca entre homens, no estágio doravante patriarcal do Ideal do Eu e da lógica do falo, da fala e da falta.
Uma analista que conheci estes dias me sentenciou: ou Análise (com ela, e a preços que hoje não poderia nem gostaria de pagar) ou a Repetição -por preços aparentemente menores, mas só aparentemente, dado o custo vital de conservar uma mentira. "Fora da análise não há salvação", como antes se diria que fora da Igreja não há salvação. Aliás, me lembro que, após um ano fantástico de crisma, recaí na velha cisma, e precisei de mais um cisma, por me cansar do grupo de jovens da Igreja, sem o mesmo charme do ano anterior; e eu precisava focar no "mundo lá fora", isto é, vestibular, inclusive desimpedindo a mente para o estudo laico e crítico da realidade. Escutei de um deles, ao telefone, também sentença parecida: era um grave erro me afastar do jovem rebanho fiel, aquilo não podia dar certo..
O mito a seguir me vem ao encontro falando de impasses de sempre -desde que percebi o destino inevitável do desmame dos sonhos-, mas também desse desamparo novo, que a velhice de idade impõe como leito e limite às delícias de me repetir sem paraísos simulados a qualquer preço nem estação consolação para este sujo superlotado metrô suando em círculos lentos no âmago do inferno.
-Unzuhause-
"O homem está em formação, mas doravante tem que formar a si mesmo. A Natureza o trouxe do barro primitivo até o ponto em que está. Deu-lhe membros, um cérebro, rudimentos de uma alma. Cabe agora a ele fazer ou desfazer esse esplêndido torso. Que não a chame mais para ajudá-lo, pois a vontade dela é criar alguém que seja capaz de criar a si mesmo".
Goldsworthy Lowes Dickinson (1862-1932)
Biograficamente o mito me ressoa como o fardo de me ver em completo desamparo ante as forças formativas e protetoras de outrora. Necessitado de auto-gestão, de remuneração produtiva, de caminhar pelas próprias pernas e pagando as próprias contas. Como num filme que vi ontem, "Cyrus", é complicado para "o menino magnífico da mamãe" -estágio matriarcal do Eu Ideal, segundo Lacan- aceitar a cesura e o sangramento imposto pelos testes da Morte, da Lei, do Tempo, da troca entre homens, no estágio doravante patriarcal do Ideal do Eu e da lógica do falo, da fala e da falta.
Uma analista que conheci estes dias me sentenciou: ou Análise (com ela, e a preços que hoje não poderia nem gostaria de pagar) ou a Repetição -por preços aparentemente menores, mas só aparentemente, dado o custo vital de conservar uma mentira. "Fora da análise não há salvação", como antes se diria que fora da Igreja não há salvação. Aliás, me lembro que, após um ano fantástico de crisma, recaí na velha cisma, e precisei de mais um cisma, por me cansar do grupo de jovens da Igreja, sem o mesmo charme do ano anterior; e eu precisava focar no "mundo lá fora", isto é, vestibular, inclusive desimpedindo a mente para o estudo laico e crítico da realidade. Escutei de um deles, ao telefone, também sentença parecida: era um grave erro me afastar do jovem rebanho fiel, aquilo não podia dar certo..
O mito a seguir me vem ao encontro falando de impasses de sempre -desde que percebi o destino inevitável do desmame dos sonhos-, mas também desse desamparo novo, que a velhice de idade impõe como leito e limite às delícias de me repetir sem paraísos simulados a qualquer preço nem estação consolação para este sujo superlotado metrô suando em círculos lentos no âmago do inferno.
-Unzuhause-
"O homem está em formação, mas doravante tem que formar a si mesmo. A Natureza o trouxe do barro primitivo até o ponto em que está. Deu-lhe membros, um cérebro, rudimentos de uma alma. Cabe agora a ele fazer ou desfazer esse esplêndido torso. Que não a chame mais para ajudá-lo, pois a vontade dela é criar alguém que seja capaz de criar a si mesmo".
Goldsworthy Lowes Dickinson (1862-1932)
Wednesday, January 25, 2012
caindo do cavalo com São Paulo
"Cair do cavalo", a expressão popular, remonta ao célebre episódio bíblico da conversão de São Paulo, celebrado neste 25 de janeiro, dia também do aniversário da metrópole que leva seu nome mas não tem nada de sua "santidade" (nenhum santo aliás é santinho, senão seria papelzim de reza e estátua de gesso, não homens), talvez porém muito de seu tormento e dinâmica de alma genial. Colhido pela aparição fulgurante do Senhor, o então Saulo cavalgava a caminho da cidade de Damasco para prosseguir sua caçada aos cristãos. A luz que o lança às trevas da cegueira temporária marca a reviravolta da identidade. Do feroz perseguidor ao "apóstolo dos gentios", talvez abaixo só de Cristo em importância para a história da religião que mudou a face do mundo. A senda da conversão foi de terror e piedade -atributos de toda tragédia, só que aqui vividos na carne, não apenas assistidos em teatro, e que teve resultado feliz, tradicionalmente associado à definição de comédia, não à tragédia. Por isso, aliás, o nome de "divina comédia" da obra-prima de Dante, também ele vítima e autor de uma profunda conversão (metanóia) existencial "no meio do caminho de nossa vida". Cair do cavalo é episódio inevitável na metade de nossa existência - lá pelos 35 anos de idade, segundo Jung, estudioso das metanóias espirituais dos gênios da cultura e dos mortais da clínica moderna. O próprio Jung passou por vivência assim, quando "caiu do cavalo" das antigas crenças e compromissos com a psicanálise de Freud, com a psicopatologia racionalista, com as psicopatologias da razão. A "metade da vida" (como se eu soubesse a soma total da qual esta seria a metade rs) está chegando para mim. Transformações também. Uma delas é parar com as "cartas inúteis" (vide texto abaixo). Outra, a recusa de continuar um "paciente" (substantivo da medicina e adjetivo bovino) sedado pelas medicações de garantia de sobrevivência do "Mínimo Eu" (Christopher Lasch). Encarar de frente a perspectiva mortal, nessa doença irremissível que é estar vivo, e fazer algo de belo com isto. Sem cacoetes e ritos de covardia. Peito aberto para a "chuva", respeitando-a e deixando a mente vazia para escoar as águas sem entupir nos detritos. Reconhecendo os amigos e companheiros de jornada, reconciliando-me com e sabendo bem dizer meu amor a meus mestres (Sem dependências infantis que o tempo implora para que sejam deixadas para trás, ou convertidos em poesia, como tudo o que não cabe nas nossas medidas do real.) Suportando a dimensão de solidão radical, sem denegá-la por vinculações imaginárias mas tampouco sem me furtar em me fazer oblação concreta a Deus e ao próximo, pois é no Outro (o divino, o cósmico e o inter-humano) que se pode desabrochar e desbrochar os tesões de um verdadeiro Eu fadado à morte, e a suas "prévias", como as perdas, envelhecimentos. Sem garantias dogmáticas de qualquer vida depois da morte, pois "caí do cavalo" de toda garantia preguiçosa e medrosa de um final feliz. Mas ansiosamente interessado, e serenamente praticante, dos mistérios da vida antes da morte.
-Unzuhause-
Para meditação da história bíblica:
São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo no Norte de África
Um sermão atribuído, nº 59; PL 65, 929
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu» (Act 9,3)
Saulo foi enviado pelo caminho de Damasco para se tornar cego, pois se ele cegou, foi para ver o verdadeiro Caminho (Jo 14,6). [...] Perdeu a vista do corpo, mas o seu coração foi iluminado para que a verdadeira luz brilhasse, quer aos olhos do seu coração, quer aos do corpo. [...] Foi enviado para dentro de si mesmo, para se procurar a si mesmo. Andava errante na sua própria companhia, viajante inconsciente, e não se encontrava porque interiormente tinha perdido o caminho.
Foi por isso que ouviu uma voz que lhe dizia [...]: «Desvia os teus passos do caminho de Saulo, para encontrares a fé de Paulo. Despe a túnica da tua cegueira e reveste-te das vestes do teu Salvador (Gl 3,27). [...] Eu quis manifestar na tua carne a cegueira do teu coração, para que pudesses ver o que não vias e não te parecesses com aqueles que 'têm olhos mas não vêem e ouvidos mas não ouvem' (Sl 115,5-6). Que Saulo se afaste deles com as suas cartas inúteis (Act 22,5), para que Paulo escreva as suas tão necessárias epístolas. Que Saulo, o cego, desapareça [...] para que Paulo se torne a luz dos crentes.» [...]
Paulo, quem te transformou assim? «Ele respondeu: Esse homem, que Se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: 'Vai à piscina de Siloé e lava-te.' Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» (Jo 9,11). Porquê esse espanto? Eis que Aquele que me criou me recriou; com o poder com que me criou, agora curou-me; eu tinha pecado mas Ele purificou-me».
Portanto, Paulo, vem, deixa o velho Saulo, em breve também verás Pedro. [...] Ananias, toca em Saulo e dá-nos Paulo; afasta para longe o perseguidor, envia em missão o pregador: os cordeiros já não terão medo, as ovelhas de Cristo viverão na alegria. Toca no lobo que perseguia Cristo, para que agora, com Pedro, ele leve a pastar as ovelhas.
Saturday, January 21, 2012
eu já escutei o sino da igrejinha..
Festa de Umbanda
-Martinho da Vila-
O sino da Igrejinha
Faz belém blem blam
Deu meia-noite
O galo já cantou
Seu tranca rua
Que é dono da gira
Oi corre gira
Que ogum mandou
Tem pena dele
Benedito tenha dó
Ele é filho de Zambi
Ô São Benedito tenha dó
Tem pena dele Nanã
Tenha dó
Ele é filho de Zambi
Ô Zambi tenha dó
Foi numa tarde serena
Lá nas matas da Jurema
Que eu vi o caboclo bradar
Quiô
Quiô, quiô, quiô, quiera
Sua mata está em festa
Saravá seu seu sete flecha
Que ele é rei da floresta
Quiô
Quiô, quiô, quiô, quiera
Sua mata está em festa
Saravá seu mata virgem
Que ele é rei da floresta
Quiô
Quiô, quiô, quiô, quiera
Sua mata está em festa
Saravá seu cachoeira
Que ele é rei da floresta
Vestimenta de caboclo
É samambaia
É samambaia, é samambaia
Saia caboclo
Não me atrapalha
Saia do meio
Da samambaia
Hino de Umbanda
Deus Nosso Senhor Oxalá Jesus Cristo, permita que cada novo raiar do Sol, mesmo se for o último, seja pleno: em lágrima de gratidão, em sorriso de missão, em aceitação da específica unção,sem a vergonha que atrai rejeição, Senhor, de vida quero contaminação, da conversa a conversão, e contigo caminhar e te amar e te respeitar, como respeito a Chuva sem fobia, sem fo-bios, vida fóbica ou fobia de vida não tenha mais lugar não, Senhor resgata meu corpo do pesadelo de grilhão Senhor fica comigo, não me deixe nunca extraviar-me de tua linha de torta retidão, Senhor és mau com quem vai mal, Senhor és um com cada um, me dê de tua senda sem roteiro, Senhor eu amo o Senhor.
-Unzuhause-
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