Sonho [esta noite]- Dois cavalos brancos escondidos sob panos, dormindo (não sei se sedados), sendo levados por algumas pessoas, acho que família, em pleno trem do metrô de SP, eu também estava lá e testemunhei. Um dos cavalos, a certa altura, está acordado, aproxima o rosto de passageiros (assustados), mas não faz senão um gesto de afago (lambida), lembrando mais um cachorrinho. Em dada estação um dos cavalos é descido, acho que o outro demonstra tristeza pela separação.As pessoas, a seguir, estão já caminhando numa estação (é grande), ao lado do cavalo que restara, elas não aparentam preocupação ou receio de serem admoestadas pela administração do metrô.
Metrô, pra mim, símbolo de sufocação, massa, desconforto, homens transformados em gado, esvaimento de energia, barulho manicomial, tentativa de me refugiar do caos em alguma leitura impossível, "comunicação" nada habermasiana (aquela bobagem da comunidade de agentes racionais em comunicação democrática, bobagem que, morta e desencarnada nos infernos subterrâneos de uma cidade como esta, mostra o que era em vida, ou melhor, no delírio do "homo teoricus" superficial e achista, mera ideologia burguesa, mais uma mentira).
O sonho mostra o choque de opostos. Ou melhor, a unificação dos contrários pela repressão de um dos pólos. O cavalo no sonho dorme ou é sentimental, pacato, "pacato cidadão" (Skank), longe de sua primitividade, impulsividade, criatividade, força, virilidade. Além disso temos o rebaixamento de um veículo de transporte natural, de tempos antigos, marca de individualidade (do cavaleiro), assujeitado agora ao transporte de rebanho, que pasteuriza, mistura, controla, conduz.
Infelizmente a dimensão essencial da violência não é hoje senão motor banalizante do sistema de dominação burocrática "metrô-politana" pesando como o calor ou temporal inumanos sobre o nosso ir, vir, pensar e fazer, estar e ser. A violência está sequestrada pelos canalhas do banditismo, que abastardam a também sagrada energia do Mal.. ou ainda pode virar, como terceira variante patológica, o que poderíamos chamar de um complexo do "Mal-amado", quimera compensatória do nerd loser que sai atirando nos colegas numa universidade americana, ou apenas se vinga dos outros e de si mesmo com o roer calado, abafado como o masturbador escondido no banheiro, remoendo seu ódio a tudo quanto apareça de legal e de bom astral nos coleguinhas odiados da escola, sobretudo nos mais generosos, nos mais "obamas"; é o superpoder do ressentimento, do pessimismo-fetiche, do pessimismo como critério de caráter quando o caráter é mera questão teórica, ismo abstrato, alma oca, o culto do Mal como auto-justificação da mediocridade moral e kriptonita com que se tenta estigmatizar e rebaixar toda utopia revolucionária, que não é boa nem má em si, porque o homem não é nada em si, é o que faz de si, para além do bem e do mal, é quem cria seus valores por suas ações; o complexo do "Mal-amado" é o amor ao Mal dos privados de amor, que não sabem ser maus o suficiente para também reverenciar e lutar pelo amor do Bem.
Vamos cavalgar de volta ao tema do meu sonho, e buscando novas amplificações simbólicas (método de C. G. Jung) do drama nele contado. No Rig-Veda, escritura religiosa arcaica do hinduísmo, não por acaso o "horse" (o termo em inglês faz mais jus, é quase onomatopaico, em relação ao ente que ele designa) é uma das imagens utilizadas em Hino em adoração ao deus do fogo, Agni; o trecho a seguir é em especial uma exaltação da Juventude:
"Como uma abundância agradável,
Como uma rica morada,
Como uma montanha com suas potencialidades,
Como uma onda salutar,
Como um cavalo que se precipita pelo caminho de um só ímpeto,
Como um rio com suas vagas, quem poderia imobilizar-te!"
Juventude - tempestade e ímpeto (Goethe), áurea verde árvore da vida, ao contrário do cinzento cadavérico da mera teoria, do tentar "ler no metrô" quando o mundo, o metrô, esquife de centopéias alucinadas, não pode mais ser lido, e sim ressuscitado, transformado, o tempo das filosofias mortas está morto, já nos comunicou Marx. É tempo de praxis, de ação, de atuação, o que remete ao cântico que abre uma das partes da epopéia Os Sertões, do Oficina de Zé Celso Martinez Correa, epopéia do homem no deserto (também o deserto urbano, "metrô-politano"):
"Atuar, atuar, atuar pra poder voar (2x)
Meu cavalo tá pesado, meu cavalo quer voar"
E, por fim, sem, evidentemente, exaurir todas as possibilidades semânticas dessa imagem arquetípica universal que é o cavalo, temos um exemplo do animal associado aos valores do heroísmo, à santidade da força, da guerra, em um cântico a São Jorge, na Umbanda, religião aliás onde o médium é denominado "cavalo" do espírito que nele escolhe se manifestar:
"Em seu cavalo branco ele vem montado
Calçando botas, ele vem armado
O vinde , vinde , vinde Nosso Salvador
O vinde , vinde , vinde São Jorge defensor
Em seu cavalo branco ele vem montado
Calçando botas, ele vem armado
O vinde , vinde , vinde Nosso Salvador
O vinde , vinde , vinde São Jorge defensor".





Hélio Oiticica (1937-1980)