Thursday, May 22, 2008

corpus christi: corpo crístico contra o corpo crucificado





"A fisionomia de Cristo evoca uma pradaria inundada de sol, numa bela manhã de primavera. É impossível fixá-la com o olhar, mas você a sente se não estiver tomado pela peste [emocional – a repressão sexual, o desejo e o corpo encouraçados]. Você se toma de afeição por ele, ele o inunda com sua radiação (...). Cristo é como uma flor radiosa e brilhante, ele o sabe, isso lhe agrada, ele tenta, a princípio, ingenuamente transmitir seus sentimentos a seus companheiros, aos quais isso, evidentemente, falta. Ele sabe que eles sofrem por serem privados desses sentimentos tanto quanto os desejam, mais que tudo na Vida. Ele ignora também que eles matam esses sentimentos em cada recém-nascido, logo depois do nascimento, mutilando seus órgãos genitais, colocando gotas de ácido em seus olhos, administrando-lhe um tapa no traseiro como primeiro sinal de boas-vindas a este mundo. Serão necessários milênios de miséria, pilhas de santos queimados vivos, montanhas de cadáveres de todo jeito espalhados pelos campos de batalha, para que eles se dêem conta disso. Não saber disto é a fatalidade que cai sobre Cristo. (...) Ele pensa que eles se sentem atraídos por sua sabedoria, como um sedento por uma fonte. No fim, eles o matarão, eles precisarão matá-lo"

WILHELM REICH (psicanalista, seguidor e dissidente de Freud)
O Assassinato de Cristo



Friday, May 16, 2008

unus mundus

O escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), autor de Memórias do Subsolo e Crime e Castigo, entre outros

Fui mediador, nesta semana, de uma mesa-redonda na USP sobre Literatura e Filosofia. O evento foi parte do XI Encontro Nacional de Pesquisa na Graduação em Filosofia. Teria muito a dizer sobre o encontro em si, tamanha a riqueza dos conteúdos debatidos. Mas o que me contentou em particular foi a disposição de todos para a reflexão séria, aprofundada, sobre temas complexos como o eterno retorno em A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera), a culpa em Dostoiévski, a alienação moderna em Franz Kafka.
Em todos esses casos, a sombra imensa de Friedrich Nietzsche pairando ao fundo, confirmando uma vez mais minha impressão de que se trata do pensador mais influente sobre a juventude de hoje, conscientemente ou não: os gênios que modificam a História, com seus atos e pensamentos, fazem-se atmosfera tanto mais crucial quanto menos perceptível.
É o caso de Nietzsche, que com seu apelo ao júbilo dionisíaco -mesmo na dor e na privação- tornou-se spiritus rector das esperanças e dos impasses de nosso tempo pós-cristão.
Cristão ainda era Dostoiévski, mas cristão de um modo singularíssimo, que muito me atrai; outro dia volto a este tema.
Quero tratar hoje de um outro aspecto do evento desta quarta-feira, mais subjetivo.
Ser pesquisador em nível de pós-graduação implica mais liberdade para fazer seu próprio trabalho, mas também, por isso mesmo, muito mais responsabilidade e mais angústia, devido a certa solidão necessária e inevitável. A turma da graduação se desfez pelo caminho, temos agora carreiras solo, nosso trabalho é silencioso embora não monologal, pois pressupõe intenso diálogo, mas com os autores e problemas de nossa própria pesquisa. Prenúncio do destino que aguarda os que enveredem pela vida de mãos dadas com o Espírito: na leitura, na escrita, na contemplação, o encontro consigo é cada vez mais desencontro do mundo.
Até por isso usufruí, neste debate, de uma alegria estranha, como se fosse resíduo de um passado que não volta mais: embora coordenador, portanto numa posição hierárquica distinta, ainda assim me senti muito próximo dos debatedores e do público, até por não gostar do estilo monopolizador e pedante infelizmente freqüente.
Desse modo, curti, ainda como estudante, algo que cada vez mais poderei experimentar apenas na posição (ela própria muito ambígua, pois pública mas profundamente individual) de professor: a sabedoria enquanto comunhão, troca, diálogo.

Aliás, uma sociedade como a nossa multiplica conhecimentos e sufoca a sabedoria não por acaso: o capitalismo afasta e hierarquiza, a sabedoria, ainda que construída ao preço e peso da solidão, frutifica (se não morrer no solo da carreira solo) em união, é via Unitiva, é centelha espiritual do Unus Mundus na matéria múltipla.

Tuesday, May 13, 2008

o uno e o múltiplo

"A chuva cai; ela é 'una'; mas floresce vermelha na papoula, branca na margarida, rosa na rosa"

-Basílio de Cesaréia-




Wednesday, May 07, 2008

7 de maio, Dia do Silêncio! rs


"O ruído é a mais impertinente de todas as interrupções, uma vez que ele interrompe, ou melhor, quebra até mesmo nossos pensamentos. No entanto, onde não há nada a ser interrompido, certamente ele não chega a incomodar"
ARTHUR SCHOPENHAUER

Sunday, April 27, 2008

monstros


Acontece nesse momento, com a reconstituição do crime pela polícia e perícia, o ato final do que acabou por se tornar um dos maiores espetáculos da atual era dos reality shows e bundamusic: o caso Isabella. Um assassinato brutal, covarde, que deu pretexto à euforia dos corvos do sensacionalismo e deu ração ao rebanho dos que anestesiam sua própria miséria olhando pra desgraça alheia.
Não vou somar meu quinhão de sal à massa de julgamentos e achismos que povoam esse hipermercado de opiniões e sentimentos manipulados. Apenas gostaria de registrar minha perplexidade com a "civilização" que somos nós: feita de monstros com máscara paternal de humanos, e de homens com alma monstruosamente vendida ao demônio do lucro e do sadismo.

Monday, April 07, 2008

ausência presente

Max Ernst, "O Olho do Silêncio" (1943-44)

"Além da Terra e do Infinito
Eu procurava o Céu e o Inferno
Mas uma voz solene disse-me:
-'Procura-os dentro de ti mesmo'"
OMAR KHAYYAM

(tradução Manuel Bandeira)

Passei alguns dias ausente de / no meu reino Unzuhause. Melhor dizendo, preferi a presença de modo ausente, ou ausência de modo presente, no espírito da teoria taoísta de que mais bem se age quando não se age, o que não quer dizer perdição na passividade. Wu-wei: ação pela não-ação. A boa ascese é superação da passio, paixão enquanto passividade , enquanto inércia do estar cativo no Outro, é vitória sobre a alienação, e não renúncia ao desejo, a qual aliás seria impossível -só não se deseja mais no repouso eterno dos cemitérios, ali se é objeto passivo do "desejo" dos vermes. Antes disso, somos sempre desejo desejante e desejado, e por isso mesmo errantes e errados em jogos de espelhos de ausências e presenças.
A linguagem, fenômeno essencial da vida humana, se constitui de signos, e estes o que são, se não forem a presença do ausente? Se não forem a coisa não-coisa, a coisa que sinaliza para outra coisa? Linguagem, verdade, desejo: metáforas. Meta-fora. A meta do fora. Saindo de si. Criança que, como conta lindamente Freud falando de seu neto, no jogo do fort-da, no ioiô da vida, ritualiza a ausência (fort) e retorno (da) da mãe, e assim se prepara para o destino de suportar a ex-sistência, o estar-fora do Corpo Absoluto e Paradisíaco que lhe fora o Seio mítico materno original.

Por mais que os fanáticos resistam e levem tudo ao pé (ou ao rabo) da letra, o dedo que aponta para a Lua jamais é a Lua mesma.. e o mundo, o que é o mundo senão signos que se enviam a outros signos, tragicomédia de sentidos tentados no palco do para sempre absurdo?
Por isso esta minha reaparição, ou este modo outro de minha ausência presente, quis ter por epígrafe as belas palavras de Omar Khayyam, na tradução de Manuel Bandeira. Um singelo convite a convivermos mais com nós mesmos, não que em nós mesmos deixemos de ser signos e desejos, portanto uma meta-fora, mas que sejamos signos desejantes mais conscientes no dentro deste fora, palavra encarnada em lucidez, em meio a nossos céus e infernos -porém nunca definitivos, nunca maniqueístas entre os eternos escolhidos e eternos condenados, como faz crer a crença judaico-cristã exotérica.. Somos perpétuo dinamismo evolutivo, não-linearidade, movimento por entre os reinos sangsáricos da avidez preparatória à genuína paixão e compaixão.

Saturday, March 22, 2008

hurricane!


SENSACIONAL--- Cate Blanchett brilhante no papel do genial Bob Dylan no filme "I'm Not There", em cartaz em São Paulo. Já que estamos em plena Semana Santa, esta é uma bela chance de testemunhar e render aleluias rs ao trabalho de um ator santo, no sentido grotowskiano. Artista em estado de "hurricane" (furacão; título de uma das músicas de Dylan, além de se aplicar muito bem à personalidade e conjunto da obra do próprio)